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sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Executivo



O relógio mostrava que estava na hora de sair. As malas prontas repousavam no hall de entrada do belo apartamento de mais de um milhão de dólares. As chaves do BWM repousavam na mesa da sala de jantar principal juntamente com os documentos e o passaporte. As passagens aéreas foram adquiridas juntamente com os bilhetes de uma peça que estava em cartaz na cidade. New York era seu destino. Mudança repentina dos planos o fizera programar essa viagem a toque de caixa. Nem teve tempo suficiente para se despedir de todos. A exceção fora sua mãe. Uma despedida rápida no dia anterior.

Ele quase nunca a visitava, apesar de ser sua mãe e ter por ela uma ponta de carinho. Não muito mais do que isso. A vida tinha lhe transformado num homem sério. Alguns diziam que era também um tanto quanto inescrupuloso no trato com as pessoas. Mas sua mãe havia lhe telefonado e pedido para que ele a visitasse. Apesar de todos os compromissos agendados, mais essa agora, pensava ele.

Foi ao encontro da mãe. Chegou rapidamente, deu um beijo na testa da senhora e se alojou no sofá, aguardando não muito ansioso o momento de ouvir o que ela tinha por dizer, mas sempre olhando para o relógio de ouro no pulso, contando as horas para sair.

A mãe queria apenas trocar algumas palavras, contar do seu dia, dos problemas de saúde que estava tendo, as intrigas com algumas vizinhas, nada muito sério. Ele estava entediado com tudo aquilo e só pensava nos desafios que iria enfrentar na América.

Até que sua mãe lhe entregou um presente. Era um pacote simples. Ele abriu rapidamente e dentro dele havia um livro. Mais do que um livro, era uma bíblia. Capa de couro, páginas feitas de papel de boa qualidade, bordas avermelhadas. Muito bonito. Ele rapidamente agradeceu, fechou novamente o pacote com um certo ar de descontentamento, contou para sua mãe da viagem, se despediu com um beijo, e a deixou.

Olhou no relógio e viu que já era hora. Pegou todos os pertences que havia separado para a viagem. Deu uma rápida olhada pelo apartamento. Viu novamente o embrulho do presente que sua mãe lhe deu. Pensou em levá-lo consigo, mas desistiu. Não haveria tempo para isso. Lembrou-se da valise com os papéis e o notebook que estava numa das cadeiras da mesa. Pegou-os com agilidade e um pouco distraído esbarrou no embrulho que caiu no chão. O livro se abriu e um papel caiu. A pressa era grande. Ele não tinha mais tempo para pegar do chão. Saiu do apartamento.

O voo 7348 da American Airlines não tinha escala, direto para New York, passagem de primeira classe. Só que tem coisas que o dinheiro e o poder não compram. Uma delas é a vida. Uma pane no momento de aterrissagem devido ao travamento de um dos trens de pouso provocou um grave acidente na pista do aeroporto. O avião derrapou e ao sair da pista chocou-se bruscamente com um dos carros de socorro e houve grande confusão. Saldo, dezesseis mortos. Ele estava no meio.

No apartamento, no dia seguinte, a faxineira encontrou o livro jogado no chão e um bilhete que dizia: Filho querido, que esta bíblia lhe acompanhe em todos os momentos da sua vida. Beijos da sua mamãe.

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