Pesquisar este blog

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - Giovanna e o seu Dom

A bela Giovanna guardava dentro de si muitas bondades que nem todo mundo sabia que existia. Ela sabia que havia algo que poderia utilizar para mudar algo na vida das pessoas. Sua capacidade de ensinar. Seu desejo de ver o próximo adquirir conhecimento sobre alguma coisa. Na verdade o que os outros enxergavam como profissão, ela via como prazer. Sentar ao lado de uma pessoa que nada sabia e iniciar um aprendizado, gratuito que fosse, era para a jovem Giovanna um ação de prazer inenarrável. A ideologia que aflorava sem que ela notasse essa presença. Sentia que algo poderia fazer para melhorar as coisas no mundo. Pura ideologia.

Quando os mendigos vieram ocupar o espaço dos fundos de sua casa, ela pensou que poderia dar a eles muito mais do que simplesmente um abrigo ou refeição, mas sim algo que pudesse fazê-los cidadãos. Só não sabia se sua empreitada seria aceita por eles. Nem sempre as pessoas reconhecem aqueles que querem ajudar. Não reconhecem a diferença entre ajudar a crescer e somente amparar. De qualquer forma, ela entendia de que deveria conversar com eles para saber se havia alguma chance de sua forma de ajuda ser aceita.

A experiência de Giovanna era restrita ao tempo das aulas de catecismo na igreja São João Batista, próxima a sua casa. O ar angelical que ela prestava ao curso era mais do que bem-vindo pelo pároco Moisés. A capacidade de contar uma simples estória como se fosse uma epopéia para os jovens alunos transformara aquela menina em jóia da coroa. Não era fácil levar até a comunidade as lições católicas, principalmente numa época onde o educador não era mais visto como sendo a figura principal, aquele que precisava ser respeitado por todos a todo instante. Infelizmente a juventude via na figura professoral algo que tinha que ser transgredido, pois representava uma repressão do passado. Mas aí surgiu Giovanna, a linda italianinha com uma vontade de passar adiante o conhecimento aos jovens aprendizes. Não havia ninguém que conseguisse demover os alunos de assistir suas exposições. Havia muito amor naquilo.

Giovanna observava o casal de mendigos que ocupavam os fundos de sua casa, e via ali uma oportunidade para mostrar para todo mundo que havia chance de mudar o rumo das coisas. Sentimento esse que talvez não fosse compartilhado com todo mundo. Nem sempre um ato que demonstre ajuda é amparado por todos. Quando se tem algo para se mostrar a alguém e isso fica reprimido dá uma dor de coração que ninguém agüenta. Estava na hora de Giovanna saber se haveria espaço para tal atitude.

Na sua época de professora de catecismo Giovanna recolheu muito material que estava jogado nos fundos da igreja. Parte desse material ela doou para uma biblioteca municipal que ficava próxima à praça. Mas, um punhado de livros didáticos ela reservou para uma necessidade futura. Na verdade, ela não queria se separar de um punhado de linhas e letras que poderiam fazer alguma diferença no futuro. Numa dessas mexidas em suas coisas ela descobriu algumas cartilhas que eram utilizadas no passado para aprendizado de adultos. Uma atividade que a igreja tinha, respaldada pelo governo, auxiliando na disponibilização do material básico. Isso, mais lápis e borracha faziam o kit básico necessário para começar as aulas.

Faltava saber se os mendigos pensavam da mesma forma. E não há como saber se não perguntar. Mas e o medo? Ela estava na verdade contando tanto com isso que o medo não deixava extravasar seus anseios. Bom, na verdade nem sabia se eles eram analfabetos ou não. Tinha que perguntar. Mas como? Só tinha um jeito, ir lá.

Giovanna esperou o retorno deles da rua, ao final do dia. Ao chegarem, percebeu no semblante deles de que algo não muito bom aconteceu. A preocupação tomou lugar da expectativa em indagá-los sobre as aulas. Giovanna disse:

– Meu Deus do céu, o que aconteceu? Vocês estão tão pálidos? O que houve? – Giovanna foi dizendo isso e segurando no braço de Dita, enquanto Juca levava sua carroça para os fundos da casa.

– Num foi nada não! – respondeu resignada a pobre Dita. Resposta tão sem veracidade que ao falar isso Dita começou a enxugar as lágrimas que começavam a cair.

– Como não foi nada Dita?! Dá pra perceber nos rostos de vocês de que algo ruim aconteceu. – Insistiu Giovanna.

Eles relataram o que havia ocorrido. Da forma como foram abordados ao coletarem papelão perto do Ceasa. Não havia como não ficar chocado com tudo isso. Mesmo porque não dava para entender o motivo que levava a uma situação tão traumática. Mas o fato de relatarem a história para Giovanna foi acalmando os dois, Juca e Dita. O rosto da linda Giovanna com ar de preocupação por eles transformara aquele momento em único. Nunca tinham visto tão compaixão por eles expressada por ninguém. O ocorrido no dia tinha abalado de sobremaneira Dita, mas não podia se dizer de Dito, pois ele já estava bem acostumado com a frieza e maldade que encontravam no dia-a-dia na coleta de reciclados. As pessoas nem sequer percebiam suas presenças. Pareciam que era o lixo da sociedade. Povos que deveriam ser extintos. Nem sequer deveriam existir, andar, ou falar com os “humanos”.

Mas o melhor estava guardado e eles não sabiam. Após ouvir todo o relato do ocorrido por Dita, Giovanna já com seu semblante carregado de raiva e com vontade de buscar a solução com suas próprias mãos. Mãos que não mereciam sequer ser usada em nenhum trabalho braçal tamanha era a beleza dos dedos. Soltou a frase que iria mudar o dia deles, e o dela também:

– Bom, acho que vocês deveriam passar por cima disso tudo, esquecer o que aconteceu hoje, mas talvez rever a forma como vocês estão levando a vida. Gostaria de saber até onde vocês foram nos assentos escolares. Até onde vocês estudaram. Se é que vocês já foram para a escola.

Aquela pergunta não estava sendo esperada, nem hoje nem nunca. Ninguém. Absolutamente ninguém havia um dia se dirigido para aqueles dois mendigos e demonstrado algum interesse em saber do passado deles. Só restava às pessoas olharem os mendigos e imaginarem um futuro cada vez mais piorado. Eles não estavam esperando que alguém lhe perguntasse algo semelhante. Dita falou:

– Óia dona Giovanna, para ser bem sincera, eu e Juca não sabemos nem escrivinhar. – A fala de Dita não poderia ser mais sincera e demonstrar toda a necessidade de um individuo em obter algo que deveria ser básico a todos. A comunicação.

Giovanna guardou as lágrimas para ela. Infelizmente ou felizmente, era a resposta que ela esperava. Não podia ter algo melhor para se ouvir do que a oportunidade de utilizar seu conhecimento em prol do outrem. Aquilo caiu como uma luva nos interesses de Giovanna em demonstrar todo o seu conhecimento em alfabetizar uma pessoa. Claro que ela não tinha praticado com ninguém ainda, porém algo de bom estava por vir. Ela via naquela situação uma oportunidade para demonstrar a todos de que algo poderia ser mudado na vida daqueles dois mendigos. A felicidade de Giovanna não cabia dentro daquele corpo minúsculo.

– Bom, então começamos amanhã à noite as aulas de alfabetização. Vou fazer vocês a aprender a ler e escrever. Vocês vão ver o bem que faz isso para todos nós. Nossa! Não vejo a hora para começar!

Juca estava literalmente de boca aberta. Não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Se alguém pudesse bater uma foto e mandar para os jornais, teria que ter uma legenda para exprimir o que ele estava sentindo naquele momento. Não poderia acreditar que uma moça fina e elegante, que se vestia como se fosse uma princesa, uma beleza impar, pudesse acreditar que dois burros xucros poderiam ser educados de tal forma que iriam ler e escrever! Não estava acontecendo isso! Ou estava?

A Dita estava em prantos novamente. Agora, era por uma boa causa. Antes, amargará uma experiência inédita de quase ver o marido levar um tiro nas fuças. E agora, depois de toda a tormenta que viveram, quase queimados por um bando de malucos em praça pública, ganharam um cantinho para morar, e vem a filha da dona da casa informar que iria dar aulas à eles! Meu Deus do céu, o que está acontecendo? O mundo pirou e não me avisaram? Tinha alguma coisa a dizer além de:

– Mas é claro que queremô, dona Giovanna, quando podemos começar?