– Não! Não, e não, Rico! Você pensa que somos ricos? – por essa reação de Josefá ele não esperava. Só porque Rico disse a sua esposa que estava pensando em ajudar os mendigos a ter seu próprio teto. Mas ao falar para a esposa que ele pensava em construir uma casa para eles, houve a reação.
Ela argumentou que eles não tinham nenhuma obrigação com o casal de mendigos. Alias, eles não tinham obrigação com ninguém. Se alguém deveria se preocupar com os mendigos esse alguém seria o governo.
– Rico, por que você não vai pedir isso lá na Prefeitura? Quem sabe eles dão duas casas, uma para eles e outra para nós! hein? – ridicularizou a esposa.
Josefa continuou a sua argumentação, que como sempre era mais forte do que a de Rico. Dizia a ele que hoje em dia ninguém se preocupa com ninguém. Se não fosse a Dona Conchetta amparar os mendigos, quem o faria? Ninguém, ela repetia. Não haveria de ter nenhum órgão oficial que se preocupasse com o bem-estar deles. Era só ver como deixaram eles chegar àquela situação. Dormir no relento, embaixo de uma arvore, numa praça qualquer da cidade. Comendo sabe lá o que. Por que teriam que ser eles, Josefá e Rico, os escolhidos para dividirem o pouco que tinham? Mesmo que eles tivessem alguma economia guardada, será que deveriam usar para um novo teto para os mendigos? Ela pensa que a resposta é não.
Mas o instinto de Rico é o de ajudar. Não importa para que e a quem. Ele começou a relatar a idéia que teve:
– Olha só, Josefá, nos fundos da casa de Dona Conchetta há espaço suficiente para subirmos um sobradinho. Lá já tem um quarto de bagunça que o finado, seu Pedro, tinha construído com a idéia de que no futuro houvesse um espaço para um dos filhos usar. Pois bem, toda a fundação, o alicerce, já está pronta. Só precisamos reforçar as paredes, construir a laje, e ... – Josefá não permitiu que ele terminasse a frase.
– Rico, para! Não tem sentido isso. Você tem mania de ajudar todo mundo. O que você ganha com isso? Nada. E, pior, com que dinheiro você fará tudo isso?
– Dinheiro não é problema. Eu converso com o Padre Móises e ele dá um jeito. – retrucou Rico.
– Rico você precisa ser internado. Você acha que o Padre Móises tem dinheiro sobrando? Se tivesse dinheiro ele já teria arrumado a torre da igreja que está quase caindo na cabeça das pessoas. Fica fazendo quermesse atrás de quermesse para atrair o dinheiro do povo, para ver se junta uns trocados e conserta o que precisa ser consertado. Você pensa que vai chegar lá e pedir dinheiro e o padre vai lhe dar, como se desse bom dia? Não é possível. Rico, de que mundo você veio?
Josefa estava certa. Como sempre acontecia. Ela era a razão. Ele sempre o devaneio. Mas ela sabia o tamanho do coração do marido. Tinha sido a principal razão por ela se apaixonar por aquele rapaz que chegou do interior de São Paulo com muita vontade para mudar o sentido das coisas. A vida não era simples. As pessoas que não se esforçam não chegam a lugar algum. Não era o caso de Rico. Desde o primeiro dia dele na cidade grande não houve moleza nem tempo para descanso. Trabalhou duro deste o principio. Não haveria melhor rapaz para uma moça casar, mesmo que não tivesse um pingo de cultura e tivesse que terminar os estudos, mal começado. Talvez por todas as dificuldades que ele presenciou, seja na própria vida ou das pessoas que o cercava, ele carregava sempre bons pensamentos para ajudar as pessoas. Não importava o quanto isso representava de sacrifício na vida
– Entendi, Josefá. Você tem razão no que diz. Mas, vou procurar o Padre Móises e ver de que forma podemos ajudar os mendigos a ter um cantinho só deles. – Rico disse isso e já foi saindo de casa, provavelmente se dirigindo à igreja.
Josefá simplesmente olhou para o teto e bufou. Pelo jeito, tudo o que ela tinha dito foi em vão. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro lado sem fazer efeito algum no cérebro tamanho de ervilha que o marido tinha.
Mas será que o Padre Móises ajudaria Rico em sua empreitada maluca? Dois loucos?
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