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sábado, 4 de setembro de 2010

Capítulo 12 - O Novo Primeiro Dia de Trabalho

No rescaldo que fizeram no dia posterior ao acidente, Juca e Rico perceberam que tudo havia sido perdido, com exceção da carroça que eles usavam no dia-a-dia. Parecia que nem tudo estava perdido. Com um pouco de manutenção, a carroça poderia ser utilizada novamente. Era uma boa notícia no meio de tantos desencontros.

Ao amanhecer naquela segunda-feira, Juca se pôs de pé e chamou Dita. – Acorda Dita, vamô trabaía. – O sol ainda não tinha brilhado seus raios no bairro e eles já estavam abrindo o portão e saindo para a rua. O destino deles era incerto. Só sabiam que deveriam voltar ao cotidiano. Eles tinham recebido uma benção. Agora deveriam fazer por merecê-la. Isso, eles só conseguiriam se dessem a volta por cima. Tentariam a partir desta segunda-feira.

Mudaram o itinerário e se dirigiram para o Ceasa que ficava a poucos quilômetros dali. Era uma boa caminhada mas que poderia render bons frutos. Como sempre, Juca ia à frente puxando a carroça, Dita mais atrás e o cão Pelé como fiel companheiro, ao lado. A consciência da população com a reciclagem tinha sido benéfica a eles. Cada vez mais, as pessoas separavam o que era lixo e deveria ser descartado nos lixões, daquele que é material com possibilidade de reciclagem. Mas, paralelamente, a profissão deles, catador de papelão e afins, estava se tornando uma opção para um grande número de desempregados e migrantes, transformando em disputa o trabalho deles.

Ao chegarem ao Ceasa o resultado da coleta não tinha sido muito generoso com eles. Poucas coisas haviam sido descartadas. Mas se depararam num dos portões de entrada do estabelecimento, com uma grande pilha de papelão que tinham sido descartados, aparentemente, por comerciantes do local. Não pensaram duas vezes. Começaram a coletar os papelões e lançar à carroça. Parecia que a sorte estava mudando de lado. Aquele mundaréu de papel representaria um bom dinheiro. Para o primeiro dia de trabalho não poderia ter coisa melhor.

Logo após começarem a coleta do papelão perceberam a presença de um velho caminhão que se dirigia ao local. O caminhão parou quase que colado a carroça deles. Desceram da boléia dois homens, e da parte de trás mais três homens. Todos mal-encarados. Aproximaram-se de Juca e foram logo dizendo:

– Quem lhe deu ordem para mexer em nossas coisas, seu bosta? – a frase de cartão de “boas vindas” não poderia ser uma das piores. Um calafrio tomou conta do corpo, tanto de Juca quanto de Dita. Perceberam que a coisa poderia ficar feia.

– Peraí amigo, to só trabalhando. Tô tentando fazer meu dia. – Tentou argumentar Juca, na esperança de que a situação fosse amenizada. Mas sabia que era um argumento fraco. Sabia que não ia ter jeito.

– Então vai procurar sua turma! Você vai tirar todo o papelão dessa sua carroça e deixar no mesmo lugar que encontrou. Essa carga aí é minha. Esse é o nosso território. Vocês pensam que podem chegar e se apropriar de nossas coisas?

– Não é isso seu moço – falou Dita – é que chegamos aqui e encontramos esse monte de papelão jogado, aí achamos que podíamos pegar e ir embora.

– Pois pensaram errado véia – falou um dos homens que havia descido da parte de trás do caminhão – podem desfazer o que fizeram. Alias, se quiserem tirar as coisas da caroça e ir embora, tudo bem. Caso contrário, nois vamo destruir suas coisas também.

Não havia opção. Eles entenderam o recado. Juca, então, começou tirar o pouco papelão que já havia colocado na carroça. Cabisbaixo e derrotado. Sabia que ali não era hora nem momento para discussões. Mesmo porque, não seria somente ele que seria castigado. Dita e Pelé não mereciam passar por aquilo. Será que o pesadelo que aconteceu com eles naquela fatídica sexta-feira iria continuar? Não era possível isso. De qualquer forma, o que deveriam fazer era amenizar a situação. Rapidamente eles tiraram todo o papelão e colocaram no mesmo local que o encontraram. Quase que instantaneamente os homens puseram a coletar o papelão e jogar para dentro do caminhão. Nisso se aproximou o motorista, e deveria ser o chefe do bando, e falou:

– E outra coisa, aqui é nosso território de coleta de papelão. Três vezes por semana a gente faz a coleta. Os donos dos estabelecimentos já nos conhecem, e sabe que é assim a coisa. Sabe como é? Uma mão lava a outra, se é que me entendem. Se vocês aparecerem de novo aqui a coisa vai ficar bem feia. Tá ligado? – falando dessa maneira e levantando a camisa, deixou à mostra um revolver. A intimidação estava completa.

– Sim, senhor. – Disse resignado Juca, abaixando a cabeça e começando a puxar a carroça para o meio-fio. Dita e Pelé seguiram-no. Havia de ter algum outro lugar para se coletar papelão.

Pelo jeito, a maré de má sorte ainda estava acompanhando eles. Mas como dizem, há males que vem para o bem. Será?

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