– Que Padre mais maledito!!! Farabutto!
Essa foi uma das primeiras reações que Dona Conchetta teve ao ouvir de Rico o relato da conversa que ele teve com o padre Móises. Uma reação nada cristã por parte da Mama, e que com certeza não estava sendo aguardada. Rico, então, deve que amenizar um pouco mais seu relato, pois a coisa poderia ficar mais feia do que já estava.
Dona Conchetta quando calma já é um perigo, imagina quando a italiana ficava nervosa. Aí ninguém segurava.
Ainda bem que Rico trazia várias peças de roupas usadas que haviam sido doadas à Igreja. Além de alguns remédios básicos que o Padre Móises tinha exigido que ele levasse aos mendigos. Não era muita coisa, mas já demonstrava que a comunidade estava do lado deles.
Dona Conchetta se acalmou, afinal de contas o que valia mesma era a intenção do Padre Móises em ajudá-los. Mesmo porque, racionalmente falando, o que ela tinha feito em acolher os mendigos não era algo comum, principalmente nos dias de hoje. Portanto, a preocupação que o Padre mostrou nada mais era do que uma reação de alguém preocupado com elas.
– Dona Conchetta, pode ficar tranqüila que eu dei a minha palavra ao Padre Móises de que eu seria o responsável pelos mendigos enquanto eles permanecessem em sua residência. – Rico tentou amenizar a situação.
– E quem disse que eu preciso que alguém responda por mim? Rico, você está ficando louco? Desde que o meu marido faleceu que eu toco a casa e as crianças, sem precisar de homem de calças aqui para dizer o que preciso fazer, para onde devo ir. Onde já se viu uma coisa dessas! – Reagiu a Italiana.
– E outra coisa – continuou a Mama – você pegue as tralhas que trouxe da Igreja e leve para o quarto dos fundos e entregue para dona Dida. Ela sabe bem o que fazer com isso. Bem, também não esqueça de agradecer ao Padre por mim, e diga que se ele tiver um armário velho lá, pode trazer porque eles vão precisar. E me passe a lata de molho. – as vezes Rico não entendia direito para que lado deveria ir, mas isso só fazia parte do mundo da italiana e seu jeito meio bronco de ser. Mas o coração daquela mulher era maior do que o de todos naquela vizinhança.
Tudo isso aconteceu em volta da mesa na cozinha, do lado da pia e do fogão. O cheiro que emanava era o mais aconchegante possível. Aquilo fazia parte do ritual da casa. Todos em volta da Mama e suas comilanças. As vezes na cozinha haviam mais pessoas do que no resto da casa. Era lá que as broncas e os mimos aconteciam. Juntamente com todas as histórias e fofocas do bairro. Uma das coisas que não era permitida naquela casa era entrar e não comer nada. E olha que a Mama tinha uma mão boa para os pratos.
Nos domingos então, como este, era o dia em que a casa ficava cheia. Além deles, Giovanna estava lá com sua amiga Caetana. Logo depois chegou Josefá para se juntar ao marido. Além deles haviam os novos hospedes, Juca e Dita, que não se misturavam. Ficavam sempre nos fundos da casa, mexendo em algo. De qualquer forma, todos iriam comer na mesma mesa, compartilhar os mesmos pratos. Era uma verdadeira confraternização.
Após o almoço todos ajudavam na limpeza. Um lavava a louça, outro enxugava. Outros limpavam a mesa e a cozinha. Normalmente nesta hora, mama Conchetta, sentava em sua cadeira de balanço que ficava na sala como se fosse aquele o presente merecido que ela se dava, por um dia cansativo. O que não durava muito, pois logo ela decidia fazer algo, um bolinho de chuva, ou simplesmente um café forte, e levantava da cadeira.
Quem não estava muito a vontade com aquela situação era Juca. Após o almoço se recolheu aos fundos da casa, sentou numa cadeira que havia e pôs-se a pensar no dia seguinte. Seria o dia que ele iria voltar à labuta. Agradecia muito a ajuda que todos estavam mostrando, mas precisava voltar à sua rotina. Amanhã será um novo dia, era o pensamento que ele fomentava naquele instante.
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