A nova moradia que o casal Juca e Dida compartilhava estava mais para um palacete do que qualquer outra coisa. Para quem dormia no relento há tanto tempo, ter um telhado por cima de sua cabeça ao descansar a noite fazia uma grande diferença. Mas aquilo que para qualquer um poderia ser considerado uma sorte danada, não era visto desta forma pelo casal. Imagine você fazendo sempre uma determinada coisa, e de repente, totalmente fora de seu controle e da sua vontade, acontece de você perder o local que era seu porto seguro, e ter que conviver em um novo espaço? Talvez não exatamente com este pensamento rebuscado, mas com o mesmo sentido, era o que Juca estava a matutar.
Eles não poderiam reclamar do aconchego do lar de Dona Conchetta. Tinha ar de casa de campo. O amor despendido a eles tanto pela dona como pela sua filha, Giovanna, era algo tão diferente do que já tinham sentido. Era um amor de mãe para filho.
Somente uma pessoa que gostasse realmente da outra poderia ofertar seu próprio teto para compartilhar.
Não que utilizassem o mesmo teto. O quarto dos fundos onde estavam Juca e Dita, era na verdade um quarto onde se guardava qualquer treco que não fazia mais parte do dia-a-dia da família. Mas agora, estavam armazenando duas almas que precisavam de compaixão. E mais do que isso, começavam a participar do cotidiano da família.
O quartinho era de alvenaria. Paredes rebocadas com uma demão de tinta que denotavam a necessidade de uma nova pintura. O chão era batido com cimento cru. Prateleiras que se estendiam de um lado ao outro do quarto, apinhadas de quinquilharias. Uma pequena janela de ferro, pequena e que não fazia muito sentido estar ali. De qualquer forma, tratava-se de um quarto que comportava duas camas de solteiro, as quais estavam com novos hospedes. Havia até uma bancada no outro canto, com várias ferramentas espalhadas como se alguém tivesse mexido neles à muito tempo atrás.
Mesmo porque não dava para imaginar nem Dona Conchetta ou Giovanna mexendo ali.
Do lado de fora do quartinho, encostado na parede, havia um tanque velho de cimento à disposição de Dita para lavar os velhos trapos. Ao lado do tanque havia um banheiro com uma privada e um chuveiro. Não havia luz no banheiro o que dificultava um pouco o uso para uma pessoa normal e exigente. Mas para Dita parecia que estavam na suíte presidencial de um Hotel cinco estrelas no centro da cidade.
Às vezes o que incomodava Juca era a falta das oportunidades de dar um gole na cachaça. Não que fosse um alcoólatra, em sua opinião, mas gostava de compartilhar, principalmente no final do dia, uns goles com sua companheira. Dita achava que tomar uns goles com Juca fazia parte de um ritual diário e que não entendia porque a busca louca do companheiro pela “maldita”. Mas como aquilo era exercido desde há muito tempo atrás, ter que interromper imediatamente a rotina era algo que incomodava, com certeza. Mas não se sentiam tão a vontade na casa da matrona Dona Conchetta de abrir uma garrafa de cachaça e entornar o líquido. Mesmo porque, vai que no calor da emoção eles se excedam. Seriam tachados de mal-agradecidos e “bebuns”. Aí sim prevaleceria a previsão do Padre Móises.
Mas o que Juca mais queria era retornar a sua diária de catador de papéis e papelão nas ruas de São Paulo. Claro que era algo extremamente cansativo do ponto de vista de coletar e carregar peso. Mas, por outro lado, o convívio com tantas pessoas pelas ruas era algo que trazia algo de gostoso para Juca. Estava sedento de que chegasse a hora de voltar ao seu cotidiano. O que na verdade estava prestes a acontecer. Só precisavam recuperar um pouco a alta estima.
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