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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Capítulo 8 - A reação do Padre Móises

– Meu Deus do céu! Vocês ficaram loucos? – foi a reação que o Padre Móises teve ao ouvir de Rico o que tinha acontecido na Praça XI no dia anterior. Mas o que mais incomodava o padre era o fato de que o casal de mendigos estava alojado na casa de Dona Conchetta.

– Padre Móises aonde o senhor queria que levássemos o casal? Não havia outra opção. Além do que Dona Conchetta não nos deu alternativa. Simplesmente os colocou pra dentro da casa dela, e já deu alojamento a eles.

– Rico você tem noção do que vocês fizeram, hein? Dona Conchetta mora sozinha naquela casa junto com sua filha Giovanna. Duas mulheres indefesas à mercê de um casal de mendigos. Que mundo que estamos vivendo! A qualquer momento pode acontecer uma desgraça lá. – retrucou o padre.

Rico entendeu perfeitamente onde o Padre Móises estava querendo chegar. O problema que aflige o casal de mendigos, Juca e Dita, não é importante. Mas o que seria mais importante? As instituições governamentais não estão nem aí pro cidadão marginalizado. A igreja não consegue observar um gesto lindo de acolhimento do próximo, e só consegue ver perigo onde não há. Só resta à sociedade se arrumar como pode e abrigar os irmãos. Mas a ação do abrigo não deveria ser exercida justamente pela igreja à qual Padre Móises representa? – Cruz-credo! – Rico bateu na boca. Seus pensamentos estavam traindo sua fé e seus dogmas. De qualquer maneira, a posição que o Padre Móises estava tomando não resolvia a principal questão: Como ajudar o casal Juca e Dita a se levantar?

– Padre, o senhor pode ficar tranqüilo, pois assumo inteiramente a segurança delas. Compreenda, é um casal de mendigos. Além do mais, se trata de um casal de pessoas quase que idosas – tentou argumentar Rico, apesar de que Juca um negro brutamontes não poderia simplesmente ser ignorado. Num momento de loucura, ou então com uns goles a mais na cabeça era capaz de fazer tanto Rico quanto o padre Móises correr de medo. Só de imaginar a cena, Rico teve vontade de rir. Mas o momento não era para isso.

– Está bem Rico, me conta, como foi que aconteceu essa tragédia?

Rico pôs-se a relatar o que aconteceu na noite anterior, a brutalidade dos vândalos, o risco de vida que o casal de mendigos correu, a reação imediata da vizinhança, e mais do que elogiada atitude de Dona Conchetta em abrir a porta de sua casa para ajudar os necessitados.

Padre Móises que representava uma ala mais tradicional da igreja enxergava na sua comunidade um rebanho que precisava de cuidados a todo instante. Repensou a situação e percebeu de que nada adiantava ir contra o que eles haviam decidido na noite anterior. Na verdade, ele começou a sentir uma satisfação muito grande dentro do seu peito. Seu coração começou a ficar mais apertado quando entendeu que aquela era uma reação mais do que cristã. Era cidadã. Demonstrava toda a maturidade que seus filhos cristãos atingiram. Porque, mais importante do que as palavras que ele usava na homília nas missas, era a prática da fé e de irmandade que aquela gente praticou no dia anterior.

Rico percebeu que a situação estava sendo assimilada pelo pároco e que chegara a hora de ter o que tinha ido pegar.

– Padre, eu preciso que o senhor me libere algumas mudas de roupa para o casal. No princípio de incêndio eles perderam tudo. Só sobraram as roupas do corpo, e o pobre cachorro. – Rico se dirigiu ao padre com uma voz mais racional e foi direto ao assunto.

– Rico você sabe que a igreja como instituição cristã prega que devemos cuidar do próximo. Do nosso irmão. Portanto, vamos até o salão principal escolher algumas peças de roupa para você levar. Acho importante você pegar algumas caixas de remédio. Você sabe né, nessas horas as pessoas ficam perturbadas, e um calmante não faz mal nenhum. E, o principal, peça para eles me procurarem, gostaria de trocar umas palavrinhas com eles.

– Padre, acho que o senhor está pedindo de mais! – foi a reação mais espontânea que Rico teve em toda a sua vida. – Acho que a última vez que pisaram numa igreja o senhor ainda estava no catecismo.

– Rico!!! Me respeita.

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