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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Capítulo 7 - O Início de Uma Amizade

– Mas que diabo está acontecendo lá? – bradou Armandinho ao se aproximar da Praça XI e, de longe, visualizar aquela balburdia de pessoas, carro da polícia, além de que havia, ele não podia diferenciar aquela distância, mas pareciam duas fogueiras apagadas no meio da praça. – Incêndio?

A imagem que estava refletida em sua retina não deixava duvidas. Algo de grave havia acontecido lá. Será que alguém se machucou? Justamente na porta da casa da Giovanna. Que estranho! Armandinho apertou o passo. Queria chegar rapidamente à casa de Giovanna para saber o que havia acontecido.

Era tarde da noite. Ele retornava do Colégio. Apesar de ser um jovem adulto, Armandinho ainda brigava para atualizar seus anos de estudo que devido a situação que o obrigava a trabalhar para ajudar no sustento da família, deixou de lado. Fazia aquilo com gosto, pois sabia que seu futuro só seria melhor se concluísse um curso, seja lá qual fosse, pois o mercado de trabalho só reconhecia um diploma, não importasse de qual faculdade. Vivia intensamente esse momento de sua vida, pois seu trabalho exigia muita energia dele, e logo depois de encerrar o expediente no mercadinho, tinha que sair correndo para casa, tomar um rápido banho e seguir na labuta noturna.

Para piorar a situação, Armandinho estudava em uma escola pública onde o nível do aprendizado era bastante discutível. O que fazia a diferença era o empenho que ele tinha para estudar, aprender coisas novas, e mostrar que quem faz o curso é o aluno. Por vezes, pensou em parar os estudos naquele colégio e seguir em outro, mas como? Não tinha dinheiro suficiente para pagar os estudos em outro local. Então tinha que se contentar com o que era lhe apresentado. Conviver com as atitudes de desprezo dos professores e da diretoria da escola. Soma-se a isso o desprendimento que seus companheiros de classe demonstravam. Estavam ali apenas para tomar seu tempo com algo diferente. Estudar ou não, não fazia parte de suas dúvidas. Muitos deles buscavam o colégio como fonte de fornecimento de drogas. Infelizmente, isso não era algo que somente aquele colégio apresentava de característica, mas sim, de uma boa parte da rede pública de ensino.

Ao se aproximar da porta da casa da Giovanna ele percebeu que os policiais já tinham ido embora, e os vizinhos se dissipavam, cada um para sua casa. O local da fumaça era perto de uma árvore, local em que os mendigos, Juca e Dita, costumavam ficar. Será que algo aconteceu com eles? Não sabia a resposta. Tinha que bater na porta da casa, e perguntar. Seu coração começou a palpitar mais forte do que quando viu de longe que alguma coisa estava acontecendo.

Não precisou abrir o portão, pois já estava aberto, nem tão pouco bater na porta da frente da casa, já estava escancarada. Dentro parecia que a bagunça tinha se alojado. A mesma bagunça que tinha visto de longe. Mas havia uma paz estranha no ar. Um cheiro caseiro de coisa boa. Giovanna estava do outro lado da sala e quando percebeu sua presença na sala correu a seu encontro. O coração de Armandinho começou a bater mais forte ainda, parecia que teria um troço ali mesmo. Se conteve.

– Oi Giovanna, o que está acontecendo aqui? Alguém se feriu? – indagou Armandinho, mas parecia que a resposta pouco importava. Seu olhar não conseguia se desvencilhar do rosto angelical de Giovanna. Se houvesse alguma possibilidade, alguma opção, ele jamais sairia daquela sala. Ficaria olhando os olhos verdes da bela Giovanna pelo tempo que fosse possível.

– Armandinho, aconteceu uma maldade muito grande aqui. Quer dizer, lá fora. – Apesar da voz chorosa, Giovanna não disfarçava a alegria e o gostoso incômodo que era recebê-lo na sua casa. Pena que o momento não era de alegria, mas de revolta. – Os mendigos foram atacados por um bando de vagabundos que atearam fogo nas coisas deles. Quase morreram. Se não fosse o cachorro dar o alarme ninguém iria perceber o que estava acontecendo. Graças a Deus eles estão bem!

Giovanna pegou na mão de Armandinho e trouxe-o para o meio da sala onde Dona Conchetta anunciava que os mendigos iriam dormir na casa dela aquela noite. O prazer de sentir a mão de Giovanna tocando a sua desencadeava uma torrente de emoções em seu peito. Parecia que seu coração iria saltar da boca. Não sabia se prestava atenção no que acontecia na casa, ou se fechava os olhos e absorvia toda a energia que pulsava ao seu lado.

Uma amizade estava começando aflorar. Mas será que ficaria somente na amizade ou finalmente se tornaria uma paixão? Só o tempo poderia dizer. Se bem que a visão de dois jovens de mãos dadas por si só já daria a resposta. Mas naquele instante ninguém estava prestando atenção neles. O foco da conversa eram as ordens de Dona Conchetta e a resignação de Dita e Juca.

Armandinho parecia que fazia parte de uma família, uma grande família italiana. E estava gostando disso. Mas será que haveria futuro naquela relação?

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