O mundo está girando e as pessoas também. Esquecem de olhar dos lados, só tem olhos para o horizonte, como se precisassem sempre atingir um objetivo. E tão logo conseguem o feito, vem outro em seguida, e mais outro, e outro. Nessa ciranda louca em que vivemos, nem sempre há espaço para se perguntarmos, e o meu irmão do lado? Quem é ele? O que faz? Precisa de algo?
Como toda máquina engatada, que só corre para frente, nossa vida às vezes precisa de um freio, um breque. O acidente na madrugada de sexta-feira teve esse poder. Todos parados, assistindo uma cena de balbúrdia, misturada com irracionalidade e bandidagem. Um casal de mendigos a espera de ajuda. Eles estavam lá a quanto tempo?
A primeira reação que Dona Conchetta teve foi abraçar a mendiga Dita e colocá-la para dentro de sua casa. Puro instinto. Dita estava em cacarecos. Demonstrava no seu rosto cansado da vida que levava, o susto que a paralisava. Não bastasse a dificuldade do dia-a-dia, ainda teria que conviver com a sensação de pavor e pânico instada a uns minutos atrás. Dona Conchetta grita para Rico:
– Rico, traga o homem, o mendigo, para cá. – Nascia ali uma relação de carinho sem precedentes. Sem saber se estava fazendo realmente o certo. Só sabiam que precisavam fazer.
Nos fundos da casa de Dona Conchetta havia um quarto de bagunças, onde todo o tipo de tralha que um dia serviu para alguma coisa era armazenado. O espaço era suficiente para que um casal pudesse alojar uma cama, e pequenos móveis que daria certo conforto. Ninguém naquele momento imaginaria o que iria acontecer. Mesmo porque aqueles mendigos estavam na praça a um bom tempo, e nunca tinham recebidos nenhum tratamento diferenciado. Prato de comida e roupa velha, sempre fora ofertado, e claro, aceitos. Mas colocá-los dentro de casa, ninguém teria feito. Mas o momento de loucura que havia começado com os garotos ensandecidos, continuava na casa da Italiana.
Giovana correu para a cozinha e preparou uma água com açúcar para Dita. Talvez fosse preciso algo mais forte para trazê-la de volta a realidade. Enquanto isso, Juca sentara numa cadeira velha que estava no quintal da casa, segurando o cachorro Pelé de uma maneira tão carinhosa, que parecia que iria quebrar os ossos do cão. Era o agradecimento por ter salvado a vida deles. Juca sabia que teria que recomeçar tudo de novo, o que não era novidade. Mas o fato de estar dentro de uma casa de uma pessoa, isso sim era algo bem novo. Mal sabia ele que ali seria o seu lar por mais algum tempo.
Assim que as coisas se acalmaram, Rico disse que iria até a igreja no dia seguinte para conversar com o padre Móises. Ele sabia que a igreja tinha um projeto em andamento de ajuda às pessoas mais necessitadas. Claramente havia ali um casal que precisa, e muito, da ajuda da comunidade. Talvez arrumasse roupas novas, alimentos, remédios e roupa de cama. Não era muito, mas o básico para ajudar no reinício. Josefa, enquanto isso permanecia paralisada, sem saber o que fazer para ajudar naquela situação. Normalmente essa era a reação dela. Mas como tudo na vida tem seu momento certo para mudar. Josefa demonstraria que tudo pode ser diferente se tivermos um novo olhar para as coisas.
Logo que a confusão na frente da casa se dissipou, os policiais já tinha ido embora, e os demais vizinhos buscavam cada uma a sua casa, Dona Conchetta, decretou:
– Vocês ficarão aqui o tempo que for necessário. Tenho sobrando um colchão no meu quarto, e traremos para cá. Se precisarem de alguma coisa, é só falar. Vocês querem comer alguma coisa?
– Não dona, obrigado. – respondeu Juca – Antes de isso tudo acontecer tínhamos preparado algo para a fome. Obrigado. Peço desculpas pelo incomodo.
Rico se prontificou em buscar o colchão velho que Dona Conchetta guardava em seu quarto, e disponibilizava para o casal de mendigos. Josefa retornou para sua casa. Enquanto Giovana dava uma última espiada na rua para saber se havia mais algum curioso.
Tanto Dita quanto Juca não estavam confortáveis com aquela situação. Por incrível que possa parecer, eles prefeririam dormir no relento da praça, mas com sua vida intacta, do que dormir num quartinho de bagunça, apesar de que para eles era como se fosse uma cobertura de luxo. Teriam que se acostumar com isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário