Com a nova situação que se instalava na vizinhança da Praça XI a partir daquela fatídica noite de sexta-feira, tudo parecia estar fora do eixo. Tem coisas que acontecem na vida das pessoas como se fosse uma predestinação. Armandinho não saberia distinguir entre ocaso e a coincidência, mas o certo é que estava gostando daquele momento. Todos os vizinhos de Dona Conchetta ajudavam como podiam na tarefa de cuidar dos novos moradores. Um dos mais atuantes era Armandinho. Ao sair para suas entregas diárias com destino às casas das freguesas, sempre tinha tempo para dar uma parada e ver se precisavam dele na casa da italiana. Dona Conchetta já tinha percebido que além da boa vontade com os mendigos, o que chamava atenção daquele rapaz respondia por outro nome, Giovanna.
A bela morena Giovanna correspondia à altura. Parecia que ela sentia a presença do rapaz na casa. Era só o rapaz chegar para perguntar se precisavam de algo, Giovanna aparecia do nada para responder que estava tudo bem, tudo em ordem.
Essa rotina de Armandinho tinha colaborado com a melhora na forma como o rapaz se vestia. Além de melhorar a forma como se expressava. Nas idas de Dona Conchetta ao mercadinho, ela tinha reparado que aquele rapaz, apesar de bonito, mais parecia um burro xucro no atendimento aos clientes. Agora não mais. Era pura atenção. Dedicado e atencioso com todos. – O que será que aconteceu? Indagava-se Dona Conchetta.
Outra que havia percebido que algo estava mudado era Caetana, a fiel companheira de Giovanna. Ela já havia percebido que ali estava iniciando uma paixão que não poderia ser contida. Caetana não deixava por menos. Colocava lenha na fogueira de Giovanna.
Instava a amiga a buscar se aproximar cada vez mais do rapaz. Como se fosse ela a contemplada. Numa dessas visitas de Armandinho à casa de Giovanna, Caetana lá estava e após a saída do rapaz, comentou com a amiga:
– Gigi, o que você está esperando? – comentou Caetana sem tirar os olhos do chão, deixando no ar um cheiro de suspense.
– Como assim Caetana, do que você está falando?
– Ora Gigi você pensa que me engana? Tá na cara que você está caída pelo pobretão do mercado. – Caetana não poderia ter escolhido melhor as palavras. Desta forma iria despertar a ira da amiga.
– Ele não é pobretão não! – era a reação que Caetana aguardava de Giovanna. Ela não poderia ter mostrado mais interesse pelo rapaz do que defendê-lo da galhofa da amiga.
– Tá vendo? Já está defendendo o rapaz. Meu Deus do céu! Vocês acabaram de dar teto a dois mendigos, e agora você adota um pobretão. Você está parecendo a Madre Teresa de Calcutá – após isso, Caetana caiu em plena gargalhada, satisfeita com a piada rapidamente montada.
– Caramba Caetana, você não tem noção! – já refeita da armadilha que tinha acabado de cair, Giovanna pôs-se a falar sério com a amiga – Sabe Caetana, toda vez que vejo o Armandinho me dá um calor, sei lá, uma bateção no coração. Tenho vontade de correr e abraçá-lo. Será que ele sente o mesmo por mim?
– Só tem um jeito de saber! – Caetana soltou mais um de seus balões de ensaio. Disse isso olhando para suas unhas e assoprando-as, como se tivesse acabado de pintá-las.
– E qual é? – Giovanna caiu mais uma vez na armadilha da amiga – Vai Caetana, desembucha, diz logo.
– Olha amiga vou te dizer mais uma vez, e que seja a última hein. Você tem que pegar o Armandinho pelo braço, a força, levá-lo até o seu quarto, e...– antes que terminasse a frase, foi interrompida pela reação da inocente Giovanna que havia percebido que boa coisa não sairia da boca da espevitada Caetana.
– Cala a boca Caetana, você só pensa em besteiras!
– Uê, em mais o que você quer que eu pense? – Caetana disse isso acompanhada de uma careta de indignação. – Por acaso tem coisa melhor, tem?
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segunda-feira, 30 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Capítulo 9 - A Nova Casa
A nova moradia que o casal Juca e Dida compartilhava estava mais para um palacete do que qualquer outra coisa. Para quem dormia no relento há tanto tempo, ter um telhado por cima de sua cabeça ao descansar a noite fazia uma grande diferença. Mas aquilo que para qualquer um poderia ser considerado uma sorte danada, não era visto desta forma pelo casal. Imagine você fazendo sempre uma determinada coisa, e de repente, totalmente fora de seu controle e da sua vontade, acontece de você perder o local que era seu porto seguro, e ter que conviver em um novo espaço? Talvez não exatamente com este pensamento rebuscado, mas com o mesmo sentido, era o que Juca estava a matutar.
Eles não poderiam reclamar do aconchego do lar de Dona Conchetta. Tinha ar de casa de campo. O amor despendido a eles tanto pela dona como pela sua filha, Giovanna, era algo tão diferente do que já tinham sentido. Era um amor de mãe para filho.
Somente uma pessoa que gostasse realmente da outra poderia ofertar seu próprio teto para compartilhar.
Não que utilizassem o mesmo teto. O quarto dos fundos onde estavam Juca e Dita, era na verdade um quarto onde se guardava qualquer treco que não fazia mais parte do dia-a-dia da família. Mas agora, estavam armazenando duas almas que precisavam de compaixão. E mais do que isso, começavam a participar do cotidiano da família.
O quartinho era de alvenaria. Paredes rebocadas com uma demão de tinta que denotavam a necessidade de uma nova pintura. O chão era batido com cimento cru. Prateleiras que se estendiam de um lado ao outro do quarto, apinhadas de quinquilharias. Uma pequena janela de ferro, pequena e que não fazia muito sentido estar ali. De qualquer forma, tratava-se de um quarto que comportava duas camas de solteiro, as quais estavam com novos hospedes. Havia até uma bancada no outro canto, com várias ferramentas espalhadas como se alguém tivesse mexido neles à muito tempo atrás.
Mesmo porque não dava para imaginar nem Dona Conchetta ou Giovanna mexendo ali.
Do lado de fora do quartinho, encostado na parede, havia um tanque velho de cimento à disposição de Dita para lavar os velhos trapos. Ao lado do tanque havia um banheiro com uma privada e um chuveiro. Não havia luz no banheiro o que dificultava um pouco o uso para uma pessoa normal e exigente. Mas para Dita parecia que estavam na suíte presidencial de um Hotel cinco estrelas no centro da cidade.
Às vezes o que incomodava Juca era a falta das oportunidades de dar um gole na cachaça. Não que fosse um alcoólatra, em sua opinião, mas gostava de compartilhar, principalmente no final do dia, uns goles com sua companheira. Dita achava que tomar uns goles com Juca fazia parte de um ritual diário e que não entendia porque a busca louca do companheiro pela “maldita”. Mas como aquilo era exercido desde há muito tempo atrás, ter que interromper imediatamente a rotina era algo que incomodava, com certeza. Mas não se sentiam tão a vontade na casa da matrona Dona Conchetta de abrir uma garrafa de cachaça e entornar o líquido. Mesmo porque, vai que no calor da emoção eles se excedam. Seriam tachados de mal-agradecidos e “bebuns”. Aí sim prevaleceria a previsão do Padre Móises.
Mas o que Juca mais queria era retornar a sua diária de catador de papéis e papelão nas ruas de São Paulo. Claro que era algo extremamente cansativo do ponto de vista de coletar e carregar peso. Mas, por outro lado, o convívio com tantas pessoas pelas ruas era algo que trazia algo de gostoso para Juca. Estava sedento de que chegasse a hora de voltar ao seu cotidiano. O que na verdade estava prestes a acontecer. Só precisavam recuperar um pouco a alta estima.
Eles não poderiam reclamar do aconchego do lar de Dona Conchetta. Tinha ar de casa de campo. O amor despendido a eles tanto pela dona como pela sua filha, Giovanna, era algo tão diferente do que já tinham sentido. Era um amor de mãe para filho.
Somente uma pessoa que gostasse realmente da outra poderia ofertar seu próprio teto para compartilhar.
Não que utilizassem o mesmo teto. O quarto dos fundos onde estavam Juca e Dita, era na verdade um quarto onde se guardava qualquer treco que não fazia mais parte do dia-a-dia da família. Mas agora, estavam armazenando duas almas que precisavam de compaixão. E mais do que isso, começavam a participar do cotidiano da família.
O quartinho era de alvenaria. Paredes rebocadas com uma demão de tinta que denotavam a necessidade de uma nova pintura. O chão era batido com cimento cru. Prateleiras que se estendiam de um lado ao outro do quarto, apinhadas de quinquilharias. Uma pequena janela de ferro, pequena e que não fazia muito sentido estar ali. De qualquer forma, tratava-se de um quarto que comportava duas camas de solteiro, as quais estavam com novos hospedes. Havia até uma bancada no outro canto, com várias ferramentas espalhadas como se alguém tivesse mexido neles à muito tempo atrás.
Mesmo porque não dava para imaginar nem Dona Conchetta ou Giovanna mexendo ali.
Do lado de fora do quartinho, encostado na parede, havia um tanque velho de cimento à disposição de Dita para lavar os velhos trapos. Ao lado do tanque havia um banheiro com uma privada e um chuveiro. Não havia luz no banheiro o que dificultava um pouco o uso para uma pessoa normal e exigente. Mas para Dita parecia que estavam na suíte presidencial de um Hotel cinco estrelas no centro da cidade.
Às vezes o que incomodava Juca era a falta das oportunidades de dar um gole na cachaça. Não que fosse um alcoólatra, em sua opinião, mas gostava de compartilhar, principalmente no final do dia, uns goles com sua companheira. Dita achava que tomar uns goles com Juca fazia parte de um ritual diário e que não entendia porque a busca louca do companheiro pela “maldita”. Mas como aquilo era exercido desde há muito tempo atrás, ter que interromper imediatamente a rotina era algo que incomodava, com certeza. Mas não se sentiam tão a vontade na casa da matrona Dona Conchetta de abrir uma garrafa de cachaça e entornar o líquido. Mesmo porque, vai que no calor da emoção eles se excedam. Seriam tachados de mal-agradecidos e “bebuns”. Aí sim prevaleceria a previsão do Padre Móises.
Mas o que Juca mais queria era retornar a sua diária de catador de papéis e papelão nas ruas de São Paulo. Claro que era algo extremamente cansativo do ponto de vista de coletar e carregar peso. Mas, por outro lado, o convívio com tantas pessoas pelas ruas era algo que trazia algo de gostoso para Juca. Estava sedento de que chegasse a hora de voltar ao seu cotidiano. O que na verdade estava prestes a acontecer. Só precisavam recuperar um pouco a alta estima.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Capítulo 8 - A reação do Padre Móises
– Meu Deus do céu! Vocês ficaram loucos? – foi a reação que o Padre Móises teve ao ouvir de Rico o que tinha acontecido na Praça XI no dia anterior. Mas o que mais incomodava o padre era o fato de que o casal de mendigos estava alojado na casa de Dona Conchetta.
– Padre Móises aonde o senhor queria que levássemos o casal? Não havia outra opção. Além do que Dona Conchetta não nos deu alternativa. Simplesmente os colocou pra dentro da casa dela, e já deu alojamento a eles.
– Rico você tem noção do que vocês fizeram, hein? Dona Conchetta mora sozinha naquela casa junto com sua filha Giovanna. Duas mulheres indefesas à mercê de um casal de mendigos. Que mundo que estamos vivendo! A qualquer momento pode acontecer uma desgraça lá. – retrucou o padre.
Rico entendeu perfeitamente onde o Padre Móises estava querendo chegar. O problema que aflige o casal de mendigos, Juca e Dita, não é importante. Mas o que seria mais importante? As instituições governamentais não estão nem aí pro cidadão marginalizado. A igreja não consegue observar um gesto lindo de acolhimento do próximo, e só consegue ver perigo onde não há. Só resta à sociedade se arrumar como pode e abrigar os irmãos. Mas a ação do abrigo não deveria ser exercida justamente pela igreja à qual Padre Móises representa? – Cruz-credo! – Rico bateu na boca. Seus pensamentos estavam traindo sua fé e seus dogmas. De qualquer maneira, a posição que o Padre Móises estava tomando não resolvia a principal questão: Como ajudar o casal Juca e Dita a se levantar?
– Padre, o senhor pode ficar tranqüilo, pois assumo inteiramente a segurança delas. Compreenda, é um casal de mendigos. Além do mais, se trata de um casal de pessoas quase que idosas – tentou argumentar Rico, apesar de que Juca um negro brutamontes não poderia simplesmente ser ignorado. Num momento de loucura, ou então com uns goles a mais na cabeça era capaz de fazer tanto Rico quanto o padre Móises correr de medo. Só de imaginar a cena, Rico teve vontade de rir. Mas o momento não era para isso.
– Está bem Rico, me conta, como foi que aconteceu essa tragédia?
Rico pôs-se a relatar o que aconteceu na noite anterior, a brutalidade dos vândalos, o risco de vida que o casal de mendigos correu, a reação imediata da vizinhança, e mais do que elogiada atitude de Dona Conchetta em abrir a porta de sua casa para ajudar os necessitados.
Padre Móises que representava uma ala mais tradicional da igreja enxergava na sua comunidade um rebanho que precisava de cuidados a todo instante. Repensou a situação e percebeu de que nada adiantava ir contra o que eles haviam decidido na noite anterior. Na verdade, ele começou a sentir uma satisfação muito grande dentro do seu peito. Seu coração começou a ficar mais apertado quando entendeu que aquela era uma reação mais do que cristã. Era cidadã. Demonstrava toda a maturidade que seus filhos cristãos atingiram. Porque, mais importante do que as palavras que ele usava na homília nas missas, era a prática da fé e de irmandade que aquela gente praticou no dia anterior.
Rico percebeu que a situação estava sendo assimilada pelo pároco e que chegara a hora de ter o que tinha ido pegar.
– Padre, eu preciso que o senhor me libere algumas mudas de roupa para o casal. No princípio de incêndio eles perderam tudo. Só sobraram as roupas do corpo, e o pobre cachorro. – Rico se dirigiu ao padre com uma voz mais racional e foi direto ao assunto.
– Rico você sabe que a igreja como instituição cristã prega que devemos cuidar do próximo. Do nosso irmão. Portanto, vamos até o salão principal escolher algumas peças de roupa para você levar. Acho importante você pegar algumas caixas de remédio. Você sabe né, nessas horas as pessoas ficam perturbadas, e um calmante não faz mal nenhum. E, o principal, peça para eles me procurarem, gostaria de trocar umas palavrinhas com eles.
– Padre, acho que o senhor está pedindo de mais! – foi a reação mais espontânea que Rico teve em toda a sua vida. – Acho que a última vez que pisaram numa igreja o senhor ainda estava no catecismo.
– Rico!!! Me respeita.
– Padre Móises aonde o senhor queria que levássemos o casal? Não havia outra opção. Além do que Dona Conchetta não nos deu alternativa. Simplesmente os colocou pra dentro da casa dela, e já deu alojamento a eles.
– Rico você tem noção do que vocês fizeram, hein? Dona Conchetta mora sozinha naquela casa junto com sua filha Giovanna. Duas mulheres indefesas à mercê de um casal de mendigos. Que mundo que estamos vivendo! A qualquer momento pode acontecer uma desgraça lá. – retrucou o padre.
Rico entendeu perfeitamente onde o Padre Móises estava querendo chegar. O problema que aflige o casal de mendigos, Juca e Dita, não é importante. Mas o que seria mais importante? As instituições governamentais não estão nem aí pro cidadão marginalizado. A igreja não consegue observar um gesto lindo de acolhimento do próximo, e só consegue ver perigo onde não há. Só resta à sociedade se arrumar como pode e abrigar os irmãos. Mas a ação do abrigo não deveria ser exercida justamente pela igreja à qual Padre Móises representa? – Cruz-credo! – Rico bateu na boca. Seus pensamentos estavam traindo sua fé e seus dogmas. De qualquer maneira, a posição que o Padre Móises estava tomando não resolvia a principal questão: Como ajudar o casal Juca e Dita a se levantar?
– Padre, o senhor pode ficar tranqüilo, pois assumo inteiramente a segurança delas. Compreenda, é um casal de mendigos. Além do mais, se trata de um casal de pessoas quase que idosas – tentou argumentar Rico, apesar de que Juca um negro brutamontes não poderia simplesmente ser ignorado. Num momento de loucura, ou então com uns goles a mais na cabeça era capaz de fazer tanto Rico quanto o padre Móises correr de medo. Só de imaginar a cena, Rico teve vontade de rir. Mas o momento não era para isso.
– Está bem Rico, me conta, como foi que aconteceu essa tragédia?
Rico pôs-se a relatar o que aconteceu na noite anterior, a brutalidade dos vândalos, o risco de vida que o casal de mendigos correu, a reação imediata da vizinhança, e mais do que elogiada atitude de Dona Conchetta em abrir a porta de sua casa para ajudar os necessitados.
Padre Móises que representava uma ala mais tradicional da igreja enxergava na sua comunidade um rebanho que precisava de cuidados a todo instante. Repensou a situação e percebeu de que nada adiantava ir contra o que eles haviam decidido na noite anterior. Na verdade, ele começou a sentir uma satisfação muito grande dentro do seu peito. Seu coração começou a ficar mais apertado quando entendeu que aquela era uma reação mais do que cristã. Era cidadã. Demonstrava toda a maturidade que seus filhos cristãos atingiram. Porque, mais importante do que as palavras que ele usava na homília nas missas, era a prática da fé e de irmandade que aquela gente praticou no dia anterior.
Rico percebeu que a situação estava sendo assimilada pelo pároco e que chegara a hora de ter o que tinha ido pegar.
– Padre, eu preciso que o senhor me libere algumas mudas de roupa para o casal. No princípio de incêndio eles perderam tudo. Só sobraram as roupas do corpo, e o pobre cachorro. – Rico se dirigiu ao padre com uma voz mais racional e foi direto ao assunto.
– Rico você sabe que a igreja como instituição cristã prega que devemos cuidar do próximo. Do nosso irmão. Portanto, vamos até o salão principal escolher algumas peças de roupa para você levar. Acho importante você pegar algumas caixas de remédio. Você sabe né, nessas horas as pessoas ficam perturbadas, e um calmante não faz mal nenhum. E, o principal, peça para eles me procurarem, gostaria de trocar umas palavrinhas com eles.
– Padre, acho que o senhor está pedindo de mais! – foi a reação mais espontânea que Rico teve em toda a sua vida. – Acho que a última vez que pisaram numa igreja o senhor ainda estava no catecismo.
– Rico!!! Me respeita.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Capítulo 7 - O Início de Uma Amizade
– Mas que diabo está acontecendo lá? – bradou Armandinho ao se aproximar da Praça XI e, de longe, visualizar aquela balburdia de pessoas, carro da polícia, além de que havia, ele não podia diferenciar aquela distância, mas pareciam duas fogueiras apagadas no meio da praça. – Incêndio?
A imagem que estava refletida em sua retina não deixava duvidas. Algo de grave havia acontecido lá. Será que alguém se machucou? Justamente na porta da casa da Giovanna. Que estranho! Armandinho apertou o passo. Queria chegar rapidamente à casa de Giovanna para saber o que havia acontecido.
Era tarde da noite. Ele retornava do Colégio. Apesar de ser um jovem adulto, Armandinho ainda brigava para atualizar seus anos de estudo que devido a situação que o obrigava a trabalhar para ajudar no sustento da família, deixou de lado. Fazia aquilo com gosto, pois sabia que seu futuro só seria melhor se concluísse um curso, seja lá qual fosse, pois o mercado de trabalho só reconhecia um diploma, não importasse de qual faculdade. Vivia intensamente esse momento de sua vida, pois seu trabalho exigia muita energia dele, e logo depois de encerrar o expediente no mercadinho, tinha que sair correndo para casa, tomar um rápido banho e seguir na labuta noturna.
Para piorar a situação, Armandinho estudava em uma escola pública onde o nível do aprendizado era bastante discutível. O que fazia a diferença era o empenho que ele tinha para estudar, aprender coisas novas, e mostrar que quem faz o curso é o aluno. Por vezes, pensou em parar os estudos naquele colégio e seguir em outro, mas como? Não tinha dinheiro suficiente para pagar os estudos em outro local. Então tinha que se contentar com o que era lhe apresentado. Conviver com as atitudes de desprezo dos professores e da diretoria da escola. Soma-se a isso o desprendimento que seus companheiros de classe demonstravam. Estavam ali apenas para tomar seu tempo com algo diferente. Estudar ou não, não fazia parte de suas dúvidas. Muitos deles buscavam o colégio como fonte de fornecimento de drogas. Infelizmente, isso não era algo que somente aquele colégio apresentava de característica, mas sim, de uma boa parte da rede pública de ensino.
Ao se aproximar da porta da casa da Giovanna ele percebeu que os policiais já tinham ido embora, e os vizinhos se dissipavam, cada um para sua casa. O local da fumaça era perto de uma árvore, local em que os mendigos, Juca e Dita, costumavam ficar. Será que algo aconteceu com eles? Não sabia a resposta. Tinha que bater na porta da casa, e perguntar. Seu coração começou a palpitar mais forte do que quando viu de longe que alguma coisa estava acontecendo.
Não precisou abrir o portão, pois já estava aberto, nem tão pouco bater na porta da frente da casa, já estava escancarada. Dentro parecia que a bagunça tinha se alojado. A mesma bagunça que tinha visto de longe. Mas havia uma paz estranha no ar. Um cheiro caseiro de coisa boa. Giovanna estava do outro lado da sala e quando percebeu sua presença na sala correu a seu encontro. O coração de Armandinho começou a bater mais forte ainda, parecia que teria um troço ali mesmo. Se conteve.
– Oi Giovanna, o que está acontecendo aqui? Alguém se feriu? – indagou Armandinho, mas parecia que a resposta pouco importava. Seu olhar não conseguia se desvencilhar do rosto angelical de Giovanna. Se houvesse alguma possibilidade, alguma opção, ele jamais sairia daquela sala. Ficaria olhando os olhos verdes da bela Giovanna pelo tempo que fosse possível.
– Armandinho, aconteceu uma maldade muito grande aqui. Quer dizer, lá fora. – Apesar da voz chorosa, Giovanna não disfarçava a alegria e o gostoso incômodo que era recebê-lo na sua casa. Pena que o momento não era de alegria, mas de revolta. – Os mendigos foram atacados por um bando de vagabundos que atearam fogo nas coisas deles. Quase morreram. Se não fosse o cachorro dar o alarme ninguém iria perceber o que estava acontecendo. Graças a Deus eles estão bem!
Giovanna pegou na mão de Armandinho e trouxe-o para o meio da sala onde Dona Conchetta anunciava que os mendigos iriam dormir na casa dela aquela noite. O prazer de sentir a mão de Giovanna tocando a sua desencadeava uma torrente de emoções em seu peito. Parecia que seu coração iria saltar da boca. Não sabia se prestava atenção no que acontecia na casa, ou se fechava os olhos e absorvia toda a energia que pulsava ao seu lado.
Uma amizade estava começando aflorar. Mas será que ficaria somente na amizade ou finalmente se tornaria uma paixão? Só o tempo poderia dizer. Se bem que a visão de dois jovens de mãos dadas por si só já daria a resposta. Mas naquele instante ninguém estava prestando atenção neles. O foco da conversa eram as ordens de Dona Conchetta e a resignação de Dita e Juca.
Armandinho parecia que fazia parte de uma família, uma grande família italiana. E estava gostando disso. Mas será que haveria futuro naquela relação?
A imagem que estava refletida em sua retina não deixava duvidas. Algo de grave havia acontecido lá. Será que alguém se machucou? Justamente na porta da casa da Giovanna. Que estranho! Armandinho apertou o passo. Queria chegar rapidamente à casa de Giovanna para saber o que havia acontecido.
Era tarde da noite. Ele retornava do Colégio. Apesar de ser um jovem adulto, Armandinho ainda brigava para atualizar seus anos de estudo que devido a situação que o obrigava a trabalhar para ajudar no sustento da família, deixou de lado. Fazia aquilo com gosto, pois sabia que seu futuro só seria melhor se concluísse um curso, seja lá qual fosse, pois o mercado de trabalho só reconhecia um diploma, não importasse de qual faculdade. Vivia intensamente esse momento de sua vida, pois seu trabalho exigia muita energia dele, e logo depois de encerrar o expediente no mercadinho, tinha que sair correndo para casa, tomar um rápido banho e seguir na labuta noturna.
Para piorar a situação, Armandinho estudava em uma escola pública onde o nível do aprendizado era bastante discutível. O que fazia a diferença era o empenho que ele tinha para estudar, aprender coisas novas, e mostrar que quem faz o curso é o aluno. Por vezes, pensou em parar os estudos naquele colégio e seguir em outro, mas como? Não tinha dinheiro suficiente para pagar os estudos em outro local. Então tinha que se contentar com o que era lhe apresentado. Conviver com as atitudes de desprezo dos professores e da diretoria da escola. Soma-se a isso o desprendimento que seus companheiros de classe demonstravam. Estavam ali apenas para tomar seu tempo com algo diferente. Estudar ou não, não fazia parte de suas dúvidas. Muitos deles buscavam o colégio como fonte de fornecimento de drogas. Infelizmente, isso não era algo que somente aquele colégio apresentava de característica, mas sim, de uma boa parte da rede pública de ensino.
Ao se aproximar da porta da casa da Giovanna ele percebeu que os policiais já tinham ido embora, e os vizinhos se dissipavam, cada um para sua casa. O local da fumaça era perto de uma árvore, local em que os mendigos, Juca e Dita, costumavam ficar. Será que algo aconteceu com eles? Não sabia a resposta. Tinha que bater na porta da casa, e perguntar. Seu coração começou a palpitar mais forte do que quando viu de longe que alguma coisa estava acontecendo.
Não precisou abrir o portão, pois já estava aberto, nem tão pouco bater na porta da frente da casa, já estava escancarada. Dentro parecia que a bagunça tinha se alojado. A mesma bagunça que tinha visto de longe. Mas havia uma paz estranha no ar. Um cheiro caseiro de coisa boa. Giovanna estava do outro lado da sala e quando percebeu sua presença na sala correu a seu encontro. O coração de Armandinho começou a bater mais forte ainda, parecia que teria um troço ali mesmo. Se conteve.
– Oi Giovanna, o que está acontecendo aqui? Alguém se feriu? – indagou Armandinho, mas parecia que a resposta pouco importava. Seu olhar não conseguia se desvencilhar do rosto angelical de Giovanna. Se houvesse alguma possibilidade, alguma opção, ele jamais sairia daquela sala. Ficaria olhando os olhos verdes da bela Giovanna pelo tempo que fosse possível.
– Armandinho, aconteceu uma maldade muito grande aqui. Quer dizer, lá fora. – Apesar da voz chorosa, Giovanna não disfarçava a alegria e o gostoso incômodo que era recebê-lo na sua casa. Pena que o momento não era de alegria, mas de revolta. – Os mendigos foram atacados por um bando de vagabundos que atearam fogo nas coisas deles. Quase morreram. Se não fosse o cachorro dar o alarme ninguém iria perceber o que estava acontecendo. Graças a Deus eles estão bem!
Giovanna pegou na mão de Armandinho e trouxe-o para o meio da sala onde Dona Conchetta anunciava que os mendigos iriam dormir na casa dela aquela noite. O prazer de sentir a mão de Giovanna tocando a sua desencadeava uma torrente de emoções em seu peito. Parecia que seu coração iria saltar da boca. Não sabia se prestava atenção no que acontecia na casa, ou se fechava os olhos e absorvia toda a energia que pulsava ao seu lado.
Uma amizade estava começando aflorar. Mas será que ficaria somente na amizade ou finalmente se tornaria uma paixão? Só o tempo poderia dizer. Se bem que a visão de dois jovens de mãos dadas por si só já daria a resposta. Mas naquele instante ninguém estava prestando atenção neles. O foco da conversa eram as ordens de Dona Conchetta e a resignação de Dita e Juca.
Armandinho parecia que fazia parte de uma família, uma grande família italiana. E estava gostando disso. Mas será que haveria futuro naquela relação?
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Capítulo 6 - O AMPARO
O mundo está girando e as pessoas também. Esquecem de olhar dos lados, só tem olhos para o horizonte, como se precisassem sempre atingir um objetivo. E tão logo conseguem o feito, vem outro em seguida, e mais outro, e outro. Nessa ciranda louca em que vivemos, nem sempre há espaço para se perguntarmos, e o meu irmão do lado? Quem é ele? O que faz? Precisa de algo?
Como toda máquina engatada, que só corre para frente, nossa vida às vezes precisa de um freio, um breque. O acidente na madrugada de sexta-feira teve esse poder. Todos parados, assistindo uma cena de balbúrdia, misturada com irracionalidade e bandidagem. Um casal de mendigos a espera de ajuda. Eles estavam lá a quanto tempo?
A primeira reação que Dona Conchetta teve foi abraçar a mendiga Dita e colocá-la para dentro de sua casa. Puro instinto. Dita estava em cacarecos. Demonstrava no seu rosto cansado da vida que levava, o susto que a paralisava. Não bastasse a dificuldade do dia-a-dia, ainda teria que conviver com a sensação de pavor e pânico instada a uns minutos atrás. Dona Conchetta grita para Rico:
– Rico, traga o homem, o mendigo, para cá. – Nascia ali uma relação de carinho sem precedentes. Sem saber se estava fazendo realmente o certo. Só sabiam que precisavam fazer.
Nos fundos da casa de Dona Conchetta havia um quarto de bagunças, onde todo o tipo de tralha que um dia serviu para alguma coisa era armazenado. O espaço era suficiente para que um casal pudesse alojar uma cama, e pequenos móveis que daria certo conforto. Ninguém naquele momento imaginaria o que iria acontecer. Mesmo porque aqueles mendigos estavam na praça a um bom tempo, e nunca tinham recebidos nenhum tratamento diferenciado. Prato de comida e roupa velha, sempre fora ofertado, e claro, aceitos. Mas colocá-los dentro de casa, ninguém teria feito. Mas o momento de loucura que havia começado com os garotos ensandecidos, continuava na casa da Italiana.
Giovana correu para a cozinha e preparou uma água com açúcar para Dita. Talvez fosse preciso algo mais forte para trazê-la de volta a realidade. Enquanto isso, Juca sentara numa cadeira velha que estava no quintal da casa, segurando o cachorro Pelé de uma maneira tão carinhosa, que parecia que iria quebrar os ossos do cão. Era o agradecimento por ter salvado a vida deles. Juca sabia que teria que recomeçar tudo de novo, o que não era novidade. Mas o fato de estar dentro de uma casa de uma pessoa, isso sim era algo bem novo. Mal sabia ele que ali seria o seu lar por mais algum tempo.
Assim que as coisas se acalmaram, Rico disse que iria até a igreja no dia seguinte para conversar com o padre Móises. Ele sabia que a igreja tinha um projeto em andamento de ajuda às pessoas mais necessitadas. Claramente havia ali um casal que precisa, e muito, da ajuda da comunidade. Talvez arrumasse roupas novas, alimentos, remédios e roupa de cama. Não era muito, mas o básico para ajudar no reinício. Josefa, enquanto isso permanecia paralisada, sem saber o que fazer para ajudar naquela situação. Normalmente essa era a reação dela. Mas como tudo na vida tem seu momento certo para mudar. Josefa demonstraria que tudo pode ser diferente se tivermos um novo olhar para as coisas.
Logo que a confusão na frente da casa se dissipou, os policiais já tinha ido embora, e os demais vizinhos buscavam cada uma a sua casa, Dona Conchetta, decretou:
– Vocês ficarão aqui o tempo que for necessário. Tenho sobrando um colchão no meu quarto, e traremos para cá. Se precisarem de alguma coisa, é só falar. Vocês querem comer alguma coisa?
– Não dona, obrigado. – respondeu Juca – Antes de isso tudo acontecer tínhamos preparado algo para a fome. Obrigado. Peço desculpas pelo incomodo.
Rico se prontificou em buscar o colchão velho que Dona Conchetta guardava em seu quarto, e disponibilizava para o casal de mendigos. Josefa retornou para sua casa. Enquanto Giovana dava uma última espiada na rua para saber se havia mais algum curioso.
Tanto Dita quanto Juca não estavam confortáveis com aquela situação. Por incrível que possa parecer, eles prefeririam dormir no relento da praça, mas com sua vida intacta, do que dormir num quartinho de bagunça, apesar de que para eles era como se fosse uma cobertura de luxo. Teriam que se acostumar com isso.
Como toda máquina engatada, que só corre para frente, nossa vida às vezes precisa de um freio, um breque. O acidente na madrugada de sexta-feira teve esse poder. Todos parados, assistindo uma cena de balbúrdia, misturada com irracionalidade e bandidagem. Um casal de mendigos a espera de ajuda. Eles estavam lá a quanto tempo?
A primeira reação que Dona Conchetta teve foi abraçar a mendiga Dita e colocá-la para dentro de sua casa. Puro instinto. Dita estava em cacarecos. Demonstrava no seu rosto cansado da vida que levava, o susto que a paralisava. Não bastasse a dificuldade do dia-a-dia, ainda teria que conviver com a sensação de pavor e pânico instada a uns minutos atrás. Dona Conchetta grita para Rico:
– Rico, traga o homem, o mendigo, para cá. – Nascia ali uma relação de carinho sem precedentes. Sem saber se estava fazendo realmente o certo. Só sabiam que precisavam fazer.
Nos fundos da casa de Dona Conchetta havia um quarto de bagunças, onde todo o tipo de tralha que um dia serviu para alguma coisa era armazenado. O espaço era suficiente para que um casal pudesse alojar uma cama, e pequenos móveis que daria certo conforto. Ninguém naquele momento imaginaria o que iria acontecer. Mesmo porque aqueles mendigos estavam na praça a um bom tempo, e nunca tinham recebidos nenhum tratamento diferenciado. Prato de comida e roupa velha, sempre fora ofertado, e claro, aceitos. Mas colocá-los dentro de casa, ninguém teria feito. Mas o momento de loucura que havia começado com os garotos ensandecidos, continuava na casa da Italiana.
Giovana correu para a cozinha e preparou uma água com açúcar para Dita. Talvez fosse preciso algo mais forte para trazê-la de volta a realidade. Enquanto isso, Juca sentara numa cadeira velha que estava no quintal da casa, segurando o cachorro Pelé de uma maneira tão carinhosa, que parecia que iria quebrar os ossos do cão. Era o agradecimento por ter salvado a vida deles. Juca sabia que teria que recomeçar tudo de novo, o que não era novidade. Mas o fato de estar dentro de uma casa de uma pessoa, isso sim era algo bem novo. Mal sabia ele que ali seria o seu lar por mais algum tempo.
Assim que as coisas se acalmaram, Rico disse que iria até a igreja no dia seguinte para conversar com o padre Móises. Ele sabia que a igreja tinha um projeto em andamento de ajuda às pessoas mais necessitadas. Claramente havia ali um casal que precisa, e muito, da ajuda da comunidade. Talvez arrumasse roupas novas, alimentos, remédios e roupa de cama. Não era muito, mas o básico para ajudar no reinício. Josefa, enquanto isso permanecia paralisada, sem saber o que fazer para ajudar naquela situação. Normalmente essa era a reação dela. Mas como tudo na vida tem seu momento certo para mudar. Josefa demonstraria que tudo pode ser diferente se tivermos um novo olhar para as coisas.
Logo que a confusão na frente da casa se dissipou, os policiais já tinha ido embora, e os demais vizinhos buscavam cada uma a sua casa, Dona Conchetta, decretou:
– Vocês ficarão aqui o tempo que for necessário. Tenho sobrando um colchão no meu quarto, e traremos para cá. Se precisarem de alguma coisa, é só falar. Vocês querem comer alguma coisa?
– Não dona, obrigado. – respondeu Juca – Antes de isso tudo acontecer tínhamos preparado algo para a fome. Obrigado. Peço desculpas pelo incomodo.
Rico se prontificou em buscar o colchão velho que Dona Conchetta guardava em seu quarto, e disponibilizava para o casal de mendigos. Josefa retornou para sua casa. Enquanto Giovana dava uma última espiada na rua para saber se havia mais algum curioso.
Tanto Dita quanto Juca não estavam confortáveis com aquela situação. Por incrível que possa parecer, eles prefeririam dormir no relento da praça, mas com sua vida intacta, do que dormir num quartinho de bagunça, apesar de que para eles era como se fosse uma cobertura de luxo. Teriam que se acostumar com isso.
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