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sexta-feira, 26 de março de 2010

O Faz-Tudo

Na natureza humana há os que estão do lado da solução, e outros do lado do problema. Alguns chamam isso do bem e do mal. Outros intitulam isso como sendo as coisas certas e as coisas erradas. Mas o que sempre observamos é que as pessoas buscam se mostrar como sendo o lado positivo, a pessoa do bem, o cara legal. Alguns tentam, mas não conseguem. Outros, nem precisam de esforço para se colocar dentro do patamar de pessoa do bem. Esse era o caso de Rico.

Nascido em Araraquara, cidade do interior de São Paulo, com o nome de batismo de Odorico Paraguaçu de Oliveira Silva, em homenagem ao personagem mítico do mais mítico ainda, Dias Gomes, grande dramaturgo, e que devido ao ator Paulo Gracindo, cativando o publico, em uma novela de tempos outrora, motivou seus pais a registrar o menino franzino, que nasceu prematuro, com um nome um tanto quanto bizarro. Já na época da escola, primário, com ajuda de uma professora que adotou ele como sendo seu, resolveu cortar o nome pela metade, adotou Rico como sendo seu nome, e com isso, eliminou as chacotas que os amiguinhos da escola impunham.

Aos 13 anos, Rico, saiu de sua terra natal e aportou em São Paulo. Morou na casa de uma tia, até completar o ginásio. Depois foi buscar o seu próprio caminho. Trabalhou como servente de pedreiro, ajudante de pintor, meio-oficial de qualquer coisa. O tempo foi passando e Rico foi aprimorando as técnicas que ia aprendendo. Um autodidata em trabalhos braçais, normalmente pesados, foi elevando seu nível de profissionalismo, até chegar ao ponto onde não somente executava, mas mandava os outros peões. Aí é que começava o problema. Não tinha sido feito para mandar. Apenas para executar. Por isso, não parava em nenhum trabalho. Mas como trabalhava bem, era fácil arrumar uma nova ocupação.

A vida fez deste homem uma pessoa sem medo de encarar qualquer desafio em trabalhos braçais. Se fosse necessário desmontar e montar um novo telhado numa casa, ele fazia. Um vizinho precisava abrir um poço artesiano para dar água à família, lá estava Rico chafurdado na lama. Um muro novo? Sem problemas, chame Rico. E não adiantava oferecer recompensa. Ele não queria. Na verdade, sabia que seu trabalho valia muito, mas pensava na mesa da família que o chamara, e a falta que faria às crianças o valor que o contratante estava dando para pagar o serviço. Não fazia questão. Repetia, “- Deus proverá!”, como um mantra.

Essas e outras atitudes de Rico deixavam Josefá, sua esposa, bastante chateada. Pois se não faltava comida na mesa dos “clientes” de Rico, as vezes faltava na sua própria casa. Ele não se importava. Havia o arroz e o feijão. Estava bom. Mas não para Josefá, que reclamava: “- Rico, pelo amor de Deus! Quando você vai aprender a cobrar? Esse pessoal do bairro pensa que você é empregado deles. Se pelo menos pagassem por isso. Mas não. Você só pensa em fazer as coisas e se esquece dos nossos filhos.”

- “Josefá, Deus proverá” – novamente, repetia seu mantra. O pároco da São João Batista, padre Móises, tinha ensinado a ele o sentido da frase. E a força que ela tinha. Por isso, Rico, a utilizava sem medo.

A relação de Rico com a igreja era estreita. Trabalhava nos finais de semana ajudando a comunidade em atividades diversas. Coleta e distribuição de roupas e alimentos. Correr atrás de remédios, muletas e cadeira de rodas, para os necessitados. E claro, pintar ou rebocar um parede qualquer da igreja. O importante para Rico era se sentir requisitado. Alguns abusavam disso.

Padre Móises, insistia para Rico se matricular novamente na escola, e continuar sem estudos. Mas Rico dizia, “- Padre, não tenho tempo pra isso. Tenho que trabalhar pra sustentar as crianças. Eles, e Josefá precisam de mim. Além do que, trabalho todos os dias. Não tenho tempo pra essas coisas mais”.

Com estudo ou sem estudo, Rico, tinha condições de ajudar, e muito, as pessoas a sua volta. Talvez, não tivesse percebido que havia um casal que precisaria muito de sua ajuda. Num futuro bem próximo.

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