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segunda-feira, 22 de março de 2010

Vida modorrenta de um pacato casal de mendigos

Juca é o homem, a mulher atende por Dita. O cão é o Pelé. Parece coincidência, mas todo mendigo tem um cachorro. Talvez porque o sentimento de posse pode ser sentido e exercido. Mesmo um mendigo tem a necessidade disso. Filho de Deus.

A moradia é a Praça 11 de Setembro, na Lapa de baixo. Lá, além de ser o refúgio à noite, tem a função de servir como um pequeno estoque de quinquilharias coletadas no dia-a-dia, e carregadas em sua carroça de madeira podre. Se pudesse valorizar este estoque talvez desse para um ou dois almoços, no máximo.

Com um punhado de papelão usado eles montavam duas camas. Ao lado da cama artesanal, as paredes se erguiam baseadas em estacas de madeira dispostas formando uma gaiola, forradas de plástico, onde dava.

Os travesseiros eram as mochilas surradas que carregavam sempre junto ao corpo. O medo da perda do pouco que tinham era quase mortal. Ao lado do travesseiro de Juca, ele sempre depositava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, e fazia questão de proferir palavras de carinho e adoração. Isso quando a cachaça deixava. O que cada vez mais rareava.

Juca era um negro forte, forjado na vida dura que seus antepassados vivenciaram. Marcas por todo o corpo. Ninguém nunca perguntou se as marcas eram fruto de briga ou da dureza da vida na rua. Um pouco dos dois talvez. Suas mãos calejadas viviam sujas da poeira da cidade grande. Retratavam um pouco do trabalho que o acometia. Os olhos, de íris cor negra, eram portais intransponíveis que registravam uma vida dura, vazia de esperança, sofrida. Os músculos da perna e dos braços eram bem definidos, conhecedores da importância que tinham para o dono. Se a inteligência escasseava, os músculos sobrepujavam. Os trapos que vestia, fruto de doações de desconhecidos, vira e mexe eram trocas por novos, se é que devíamos utilizar este adjetivo para descrevê-los.

A mulher, Dita, nascida Benedita da Silva, no Rio de Janeiro, há muito tempo atrás, tanto que nem se lembra mais quando. Mulata que na adolescência apresentava dotes que a qualificariam como uma futura mulher de sambista, quadris largos, coxas grossas, pernas compridas. Mas que o tempo tratou logo de colocá-la no seu lugar. Lugar de uma esposa de mendigo. Perdeu os pais bem cedo, cuidou dos irmãos até a polícia cuidar deles. Caiu no crack, na bebida, e só depois de um atropelamento que dilacerou uma das pernas, e que obrigatoriamente, tirou-a seis meses da rua, conseguiu (ou foi obrigada?) se livrar das duas malditas. Conheceu Juca num albergue do Cambuci, e se tornaram sócios, cúmplices em pequenos delitos, e resolveram dividir tudo do pouco que tinham. Tornaram-se amantes. Viraram marido e mulher. Sabe se lá Deus como.

A Pelé, o cão, um vira-lata preto e branco, que foi adotado numa dessas coletas qualquer, num dia chuvoso, a função era de guarda, sem mesmo ter pedigree para isso. Pelé, por gratidão aos donos, à noite, era capaz de mostrar os dentes para qualquer um que se atrevesse a se aproximar do apartamento do casal. Aí de quem, até mesmo sem querer, cruzasse a Praça 11, próximo de Pelé. Corria-se o risco de ter que buscar ajuda num farmacêutico do bairro.

Poucos que passavam pela Praça 11 observavam o casal Juca e Dita. Não tinham tempo para isso. Mas os poucos que ainda mantinham um espaço de tempo ocioso em suas vidas podiam ver como o casal, e seu fiel escudeiro, representavam no teatro da vida, um casal, quase, perfeito. Ou será que eram perfeitos mesmo?

O dia começava logo ao raiar do sol. Ou ate antes. O sentimento era de que o “quarto” do casal deveria ser desmontado e guardado na carroça antes dos vizinhos “reais” saírem do casulo que chamavam de lar, e adentrarem cada um na sua ciranda particular.

Rapidamente todas as tralhas eram recolhidas por Juca e acomodadas na carroça. Pelé sempre o acompanhava na atividade rotineira e sem graça. Para nós. Mas para o cão aquilo era uma brincadeira sem fim. As tralhas seriam trocadas por um punhado de reais no ferro velho do Seu Alfredo, perto da Marginal do Tietê, ao lado do viaduto da Freguesia.

Era uma boa caminhada. No trajeto de ida, recolhiam mais alguma coisa jogada, ou esquecida, na rua, pela burguesia paulista. Trocavam pelos caraminguás que iriam se transformar na única refeição do dia. Na volta, sempre por outras ruas, iniciavam a coleta de novo, com destino ao apartamento da Praça 11, próximo às Sucupiras. Numa roda vida sem fim.

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