O bairro da Lapa sempre foi um bairro de pessoas abastadas, bem de vida, e de certa forma criava um antagonismo muito grande com o pessoal que vivia na Lapa de Baixo. A parte de Baixo era constituída em sua maioria de família com origem nas grandes fábricas do início do século XX. Marido e mulher se conheciam nas fábricas, casavam, ela se tornava dona-de-casa, e ele iniciava sua vida de arrimo. Bem diferente da parte da City Lapa.
Em sua maioria os moradores da Lapa de Baixo eram imigrantes de origem européia, principalmente italianos e portugueses. Na casa que ficava de frente ao quarto improvisado de Juca e Dita, de fronte a bela Sucupira, morava Dona Conchetta. Matriarca de uma família cujas origens se misturavam ao do bairro. Mãe de cinco filhos, os dois primeiros homens, Pedro e João Paulo, orgulhava Seu Pedro, o pai. Depois vieram Maria Clara, Lúcia e Giovanna. Praticamente não havia diferença de idade entre os filhos. Nasciam um após o outro. Nada diferente do resto dos moradores do bairro, quiçá do resto do país, nos idos dos anos 1950.
Seu Pedro, filho de italiano nascido no Brasil, era o retrato fiel de um homem que buscava a felicidade nas pequenas coisas da vida. Não se chateava com nada, a não ser o final de uma garrafa de vinho. De excesso a excesso ele levava sua vida com uma mistura de trabalho extenuante, e noitadas embaladas pela bebida e pela música. Não resistiu a um infarto fulminante, e deixou a esposa com a dura missão de cuidar dos filhos, e dar a eles um futuro menos medíocre. Os pequenos ombros desta mulher talvez não suportassem tamanha carga.
Dona Conchetta trabalhava dia e noite para cuidar dos rebentos. Sempre auxiliada pelos vizinhos, que a ajudavam nas tarefas, seja na de colocar comida no prato, ou como educar as crianças. A essência de uma comunidade se mostrava forte nessas situações. Trabalho não faltava, a vizinhança crescia e demandava mão-de-obra. Dona Conchetta não recusava. Faltava tempo para pensar num segundo casamento. Mesmo que tivesse tempo, talvez o coração daquela mulher-coragem tinha sido prometido a um único homem, o seu primeiro amor, e agora compartilhado com a única herança de Seu Pedro, os filhos. Eles representavam o que de mais precioso ela possuía.
Como toda família de origem italiana, Dona Conchetta era uma assídua freqüentadora da paróquia do bairro, a igreja São João Batista, que ficava a três quarteirões da Praça 11. Além de todo o trabalho que sua vida já lhe impunha, ela ainda se colocava a disposição da comunidade em trabalhos voluntários, no atendimento aos menos favorecidos. Conforme o tempo passava, ela se dedicava cada vez mais em atividades humanitárias. Neste ponto, tanto ela quanto o pároco, praticavam os mandamentos de uma forma bem mais pontual. Como ela sempre disse: “- Na minha casa nunca faltou comida. Se eu tivesse condições, em nenhuma outra casa jamais faltaria alimento.”. Porem, o que Dona Conchetta não sabia é que sua alma se alimentava por causa dos seus gestos.
O tempo foi passando, os filhos crescendo, e cada um buscando o seu caminho. Só sobrou a filha mais nova na casa, Giovanna. Mas como a vida é cíclica e se renova a todo instante, Dona Conchetta começou a ver sua família se expandir através dos casamentos dos filhos, e no nascimento dos netos. Ela pensava, “- Puxa vida, o Pedro deve estar rindo a toa, aonde ele estiver agora.”.
O que Dona Conchetta não sabia era que iria ganhar um novo filho. Um não, dois, Juca e Dita. Além do Pelé, como mascote.
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