Giovanna nos seus vinte e dois anos de idade era o retrato de uma época onde as donzelas eram o dote que toda a família tinha como moeda de troca num casamento arranjado, uma bela morena de olhos verdes. Um rosto angelical que sempre se destacava aonde estivesse. Tinha um ar de menina do campo, com leve sotaque italiano, aprimorado no seio da família, mas que não deixava de lado os costumes cosmopolitas de uma cidade em franco crescimento. Os lindos olhos verdes eram acompanhados de uma sobrancelha que destoava do ar de boa moça, e colocava qualquer rapaz com alguma intenção não muito comportada, no seu devido lugar. Alias, se você quisesse saber o humor da menina, uma dica, tinha que observar o formato das sobrancelhas. Seus cabelos eram negros, bem cuidados, na altura da cintura, cacheados, o que só realçavam a beleza do conjunto.
As roupas que Giovanna usava não estavam em nenhum catalogo de uma casa da alta costura, muito pelo contrário, eram feitas, a mão, por Dona Sebastiana, que morava a duas casas abaixo. De qualquer forma, cada par de roupas que Giovanna usava caía nela como uma luva. Realçavam desde seu tornozelo até o ombro largo. Dependendo do comprimento da saia, ou do vestido, deixavam visíveis as belas pernas da juventude. Uma coisa não podíamos deixar de notar, a vaidade da Giovanna só ajudavam a destacá-la em qualquer lugar que fosse.
Mas como todo menina crescida numa família italiana, tradicional e católica, Giovanna levava uma vida bem monótona se compararmos com a sua amiga, Caetana, filha de um casal de amigos de sua mãe. Os conselhos de Caetana chegavam ao ouvido de Giovanna como fogos de artifício, que observávamos nas noites frias de Junho.
- Gigi, você tem que aprender a beijar! Puxa vida como é bom. Voce não sabe o que está perdendo – sempre que podia, Caetana cutucava a amiga, que retrucava:
- Ah, para com isso Caetana. Você hein?! Sua mãe sabe que você fica pensando nessas coisas?
- E por acaso Gigi você acha que eu fico só pensando? Eu não. Tenho meus pretendentes que me dão tudo que peço. Vou dizer uma coisa pra você, assim que der vou pregar uma mentira na mama, saio sexta-feira e volto só no domingo a tarde. Só Deus vai saber o que vou aprontar.
- Cruz credo! Replicou Giovanna, incrédula no que ouvia da amiga.
Desta forma, Giovanna, crescia ouvindo as estórias da amiga Caetana, e pensando se realmente aquilo era verdade ou não, e o que Dona Conchetta pensaria dela se por acaso caísse nos braços do Armandinho, a sua grande paixão. Os conselhos de Caetana só aguçavam os desejos da Giovanna. Aflorava seus instintos femininos. Sempre em contradição com sua educação até então. Mas com certeza o dia da descoberta estava próximo.
Armandinho trabalhava no mercadinho do bairro, o empório do Seu João, que ficava do outro lado da Praça 11. Fazia de tudo um pouco. Era praticamente o braço direito do dono, e só tinha tempo para pensar no trabalho. Acordava todos os dias às cinco da manhã, e após um café da manhã bem reforçado, a base de pão de lingüiça e um belo copo de café com leite, iniciava no batente antes das seis horas. Todo santo dia. Mal tinha tempo para sair nas noites de sábado e nas tardes de domingo. O cansaço era grande, e os deveres com a escola diminuíam muito o tempo da folga. Mas sempre havia um tempinho para observar a linda morena que as vezes entrava na vendinha e ficava escolhendo algum produto. Até parecia que a morena fitava ele pelo canto dos olhos. Era o que Armandinho pensava. Mal sabia ele que era exatamente o que acontecia. Também pudera, Armandinho era um bonito rapaz, cujo pesado trabalho que executava, tornearam seus músculos, e realçavam a cor morena que herdará de seus antepassados. Os cabelos lisos e arredios ajudavam a dar um ar de rebeldia ao jovem rapaz. A timidez impedia-o de ficar muito tempo na frente do mercadinho. O mais fácil de encontrá-lo era nos fundos do imóvel, próximo ao estoque de mercadorias, arrumando uma coisa aqui outra lá. As vezes, o patrão pedia, e ele a muito contragosto, tinha que executar as entregas das compras das freguesas. Pelo menos uma vez por mês ele tinha que se dirigir a casa de uma freguesa especial, Dona Conchetta.
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