Tem coisas absurdas nessa nossa vida. A começar pelo animal com o intelecto mais avançado da face da terra, e sua capacidade de provar a irracionalidade que às vezes o permeia. Os moradores da Praça 11 já tinham ouvido falar, visto pela televisão, mas jamais imaginaram que iriam vivenciar na pele aquele drama. É como aquela velha máxima de que a desgraça não acontece só com o nosso vizinho. Mal sabiam que iriam ser protagonistas numa situação jamais imaginada.
Era alta madrugada de uma sexta-feira, dessas que a lua de tão cheia parecia invadir as janelas de cada casa, e levar uma luz cheia de vida. Vida que para alguns deveria ser celebrada, mas para outros, desperdiçada. Parece que a lua cheia trazia no seu bojo a crença de que o mais perverso dos animais se despertaria. E, parecia que isto estava prestes a se materializar.
A chegada de uma lua cheia era acompanhada com uma noite quente, daquelas que convida até o abstêmio a um gole. Imagina a reação num grupo de amigos que por si só já saiam para farrear. Animados com a temperatura, uma madrugada que parecia dia, e mais o líquido dourado numa temperatura refrescante, pronto para afagar as almas mais doidas. O resultado era um produto pronto para explosão, uma ebulição precedida de muito combustível. A quantidade de cerveja consumida por aqueles grupo de quatro amigos foi além da conta.
Ao retornarem do centro da cidade para o bairro onde habitavam, tinham que cruzar a Lapa de Baixo, e passar pela Praça 11. O carro cruzava qualquer semáforo independente da cor, e numa velocidade compatível somente com rachas. O som alto do rádio tocava um funk carioca que jamais poderia ser tachado de obra-prima, mas que junto com o cérebro preparado dos rapazes a base de muita cevada, montava um coquetel de adrenalina, o qual os rapazes sempre nos finais de semana provavam. Um desses rapazes, o mais velho, cheio de malandragem e amizades não muito recomendadas, começou a montar a bituca, e iniciou a rodada dentro do carro mesmo. Ao se aproximarem da Praça 11, pela Rua Gaspar Carneiro, mesmo caminho que todos os carros usavam para cruzá-la. Esqueceram de uma pequena valeta que havia na rua, e ao passarem por ela, velocidade acima do normal, carro pesado, e motorista não muito atento, fez com que um dos pneus estourasse, e obrigasse o carro a parar. O que pareceria simplesmente um acidente onde uma troca do pneu pelo estepe resolveria, transformou-se numa alavanca para maus humores. Pois não havia estepe. Podia se perceber que a tendência era a coisa descambar, e foi o que aconteceu.
Os rapazes sem alternativa a não ser deixar o veiculo estacionado no meio-fio e buscar socorro em outro canto, viram no meio da praça as duas barracas que Juca e Dita chamavam de quarto. Um dos rapazes teve a insana idéia de chatear quem estivesse dormindo naquelas barracas. Outro pensou, por que não poderiam fazer uma pequena brincadeira, já que tinham um pouco de gasolina de reserva no carro. Iriam esquentar um pouco mais a noite.
Pelé, o cão de guarda, sem pedigree ao observar a presença do estranho, deu o alarme e iniciou o ataque. Por azar, naquela noite, Juca tinha se esquecido de amarrar Pelé na arvore, como sempre o fazia. O cão simplesmente fez o que o seu instinto pediu, botou pra correr um dos rapazes. Mas eles estavam em mais três elementos. Foi a conta de jogarem um pouco de gasolina nas barracas e atear fogo. A velocidade da ação foi absurda, mas alardeados por Pelé, tanto Juca quanto Dida, saiam de suas barracas, e tiveram tempo de salvar apenas a própria pele. Sinceramente, o cenário estava montando para uma desgraça maior. Eles tinham que agradecer a Deus por saírem ilesos dessa. Mas suas coisas ardiam em chamas, e fazia com que toda a vizinhança acordasse para acompanhar o triste desfecho.
Um dos rapazes, Pelé, tinha dado jeito, estava chegando no próximo bairro, correndo. Os outros voltaram até o carro, e o puseram em movimento mesmo com um dos pneus no chão, provocando um barulho infernal de borracha se rasgando e um pouco de fricção do aço com o asfalto.
Coube à vizinhança buscar ajuda de policiais para apagar a fogueira que os rapazes iniciaram. De imediato uma força tarefa se formou para saber se os dois mendigos estavam feridos, machucados, se precisavam de auxilio medico, ou apenas estavam assustados. O que eles perceberam é que na tragédia, Juca e Dida perderam tudo, mas os moradores da Praça 11 ganharam dois novos filhos bem grandinhos, junto com o seu bravo cão de guarda.
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