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segunda-feira, 29 de março de 2010

Acidente que Mudou o Rumo

Tem coisas absurdas nessa nossa vida. A começar pelo animal com o intelecto mais avançado da face da terra, e sua capacidade de provar a irracionalidade que às vezes o permeia. Os moradores da Praça 11 já tinham ouvido falar, visto pela televisão, mas jamais imaginaram que iriam vivenciar na pele aquele drama. É como aquela velha máxima de que a desgraça não acontece só com o nosso vizinho. Mal sabiam que iriam ser protagonistas numa situação jamais imaginada.

Era alta madrugada de uma sexta-feira, dessas que a lua de tão cheia parecia invadir as janelas de cada casa, e levar uma luz cheia de vida. Vida que para alguns deveria ser celebrada, mas para outros, desperdiçada. Parece que a lua cheia trazia no seu bojo a crença de que o mais perverso dos animais se despertaria. E, parecia que isto estava prestes a se materializar.

A chegada de uma lua cheia era acompanhada com uma noite quente, daquelas que convida até o abstêmio a um gole. Imagina a reação num grupo de amigos que por si só já saiam para farrear. Animados com a temperatura, uma madrugada que parecia dia, e mais o líquido dourado numa temperatura refrescante, pronto para afagar as almas mais doidas. O resultado era um produto pronto para explosão, uma ebulição precedida de muito combustível. A quantidade de cerveja consumida por aqueles grupo de quatro amigos foi além da conta.

Ao retornarem do centro da cidade para o bairro onde habitavam, tinham que cruzar a Lapa de Baixo, e passar pela Praça 11. O carro cruzava qualquer semáforo independente da cor, e numa velocidade compatível somente com rachas. O som alto do rádio tocava um funk carioca que jamais poderia ser tachado de obra-prima, mas que junto com o cérebro preparado dos rapazes a base de muita cevada, montava um coquetel de adrenalina, o qual os rapazes sempre nos finais de semana provavam. Um desses rapazes, o mais velho, cheio de malandragem e amizades não muito recomendadas, começou a montar a bituca, e iniciou a rodada dentro do carro mesmo. Ao se aproximarem da Praça 11, pela Rua Gaspar Carneiro, mesmo caminho que todos os carros usavam para cruzá-la. Esqueceram de uma pequena valeta que havia na rua, e ao passarem por ela, velocidade acima do normal, carro pesado, e motorista não muito atento, fez com que um dos pneus estourasse, e obrigasse o carro a parar. O que pareceria simplesmente um acidente onde uma troca do pneu pelo estepe resolveria, transformou-se numa alavanca para maus humores. Pois não havia estepe. Podia se perceber que a tendência era a coisa descambar, e foi o que aconteceu.

Os rapazes sem alternativa a não ser deixar o veiculo estacionado no meio-fio e buscar socorro em outro canto, viram no meio da praça as duas barracas que Juca e Dita chamavam de quarto. Um dos rapazes teve a insana idéia de chatear quem estivesse dormindo naquelas barracas. Outro pensou, por que não poderiam fazer uma pequena brincadeira, já que tinham um pouco de gasolina de reserva no carro. Iriam esquentar um pouco mais a noite.

Pelé, o cão de guarda, sem pedigree ao observar a presença do estranho, deu o alarme e iniciou o ataque. Por azar, naquela noite, Juca tinha se esquecido de amarrar Pelé na arvore, como sempre o fazia. O cão simplesmente fez o que o seu instinto pediu, botou pra correr um dos rapazes. Mas eles estavam em mais três elementos. Foi a conta de jogarem um pouco de gasolina nas barracas e atear fogo. A velocidade da ação foi absurda, mas alardeados por Pelé, tanto Juca quanto Dida, saiam de suas barracas, e tiveram tempo de salvar apenas a própria pele. Sinceramente, o cenário estava montando para uma desgraça maior. Eles tinham que agradecer a Deus por saírem ilesos dessa. Mas suas coisas ardiam em chamas, e fazia com que toda a vizinhança acordasse para acompanhar o triste desfecho.

Um dos rapazes, Pelé, tinha dado jeito, estava chegando no próximo bairro, correndo. Os outros voltaram até o carro, e o puseram em movimento mesmo com um dos pneus no chão, provocando um barulho infernal de borracha se rasgando e um pouco de fricção do aço com o asfalto.

Coube à vizinhança buscar ajuda de policiais para apagar a fogueira que os rapazes iniciaram. De imediato uma força tarefa se formou para saber se os dois mendigos estavam feridos, machucados, se precisavam de auxilio medico, ou apenas estavam assustados. O que eles perceberam é que na tragédia, Juca e Dida perderam tudo, mas os moradores da Praça 11 ganharam dois novos filhos bem grandinhos, junto com o seu bravo cão de guarda.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Faz-Tudo

Na natureza humana há os que estão do lado da solução, e outros do lado do problema. Alguns chamam isso do bem e do mal. Outros intitulam isso como sendo as coisas certas e as coisas erradas. Mas o que sempre observamos é que as pessoas buscam se mostrar como sendo o lado positivo, a pessoa do bem, o cara legal. Alguns tentam, mas não conseguem. Outros, nem precisam de esforço para se colocar dentro do patamar de pessoa do bem. Esse era o caso de Rico.

Nascido em Araraquara, cidade do interior de São Paulo, com o nome de batismo de Odorico Paraguaçu de Oliveira Silva, em homenagem ao personagem mítico do mais mítico ainda, Dias Gomes, grande dramaturgo, e que devido ao ator Paulo Gracindo, cativando o publico, em uma novela de tempos outrora, motivou seus pais a registrar o menino franzino, que nasceu prematuro, com um nome um tanto quanto bizarro. Já na época da escola, primário, com ajuda de uma professora que adotou ele como sendo seu, resolveu cortar o nome pela metade, adotou Rico como sendo seu nome, e com isso, eliminou as chacotas que os amiguinhos da escola impunham.

Aos 13 anos, Rico, saiu de sua terra natal e aportou em São Paulo. Morou na casa de uma tia, até completar o ginásio. Depois foi buscar o seu próprio caminho. Trabalhou como servente de pedreiro, ajudante de pintor, meio-oficial de qualquer coisa. O tempo foi passando e Rico foi aprimorando as técnicas que ia aprendendo. Um autodidata em trabalhos braçais, normalmente pesados, foi elevando seu nível de profissionalismo, até chegar ao ponto onde não somente executava, mas mandava os outros peões. Aí é que começava o problema. Não tinha sido feito para mandar. Apenas para executar. Por isso, não parava em nenhum trabalho. Mas como trabalhava bem, era fácil arrumar uma nova ocupação.

A vida fez deste homem uma pessoa sem medo de encarar qualquer desafio em trabalhos braçais. Se fosse necessário desmontar e montar um novo telhado numa casa, ele fazia. Um vizinho precisava abrir um poço artesiano para dar água à família, lá estava Rico chafurdado na lama. Um muro novo? Sem problemas, chame Rico. E não adiantava oferecer recompensa. Ele não queria. Na verdade, sabia que seu trabalho valia muito, mas pensava na mesa da família que o chamara, e a falta que faria às crianças o valor que o contratante estava dando para pagar o serviço. Não fazia questão. Repetia, “- Deus proverá!”, como um mantra.

Essas e outras atitudes de Rico deixavam Josefá, sua esposa, bastante chateada. Pois se não faltava comida na mesa dos “clientes” de Rico, as vezes faltava na sua própria casa. Ele não se importava. Havia o arroz e o feijão. Estava bom. Mas não para Josefá, que reclamava: “- Rico, pelo amor de Deus! Quando você vai aprender a cobrar? Esse pessoal do bairro pensa que você é empregado deles. Se pelo menos pagassem por isso. Mas não. Você só pensa em fazer as coisas e se esquece dos nossos filhos.”

- “Josefá, Deus proverá” – novamente, repetia seu mantra. O pároco da São João Batista, padre Móises, tinha ensinado a ele o sentido da frase. E a força que ela tinha. Por isso, Rico, a utilizava sem medo.

A relação de Rico com a igreja era estreita. Trabalhava nos finais de semana ajudando a comunidade em atividades diversas. Coleta e distribuição de roupas e alimentos. Correr atrás de remédios, muletas e cadeira de rodas, para os necessitados. E claro, pintar ou rebocar um parede qualquer da igreja. O importante para Rico era se sentir requisitado. Alguns abusavam disso.

Padre Móises, insistia para Rico se matricular novamente na escola, e continuar sem estudos. Mas Rico dizia, “- Padre, não tenho tempo pra isso. Tenho que trabalhar pra sustentar as crianças. Eles, e Josefá precisam de mim. Além do que, trabalho todos os dias. Não tenho tempo pra essas coisas mais”.

Com estudo ou sem estudo, Rico, tinha condições de ajudar, e muito, as pessoas a sua volta. Talvez, não tivesse percebido que havia um casal que precisaria muito de sua ajuda. Num futuro bem próximo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Bela Giovanna

Giovanna nos seus vinte e dois anos de idade era o retrato de uma época onde as donzelas eram o dote que toda a família tinha como moeda de troca num casamento arranjado, uma bela morena de olhos verdes. Um rosto angelical que sempre se destacava aonde estivesse. Tinha um ar de menina do campo, com leve sotaque italiano, aprimorado no seio da família, mas que não deixava de lado os costumes cosmopolitas de uma cidade em franco crescimento. Os lindos olhos verdes eram acompanhados de uma sobrancelha que destoava do ar de boa moça, e colocava qualquer rapaz com alguma intenção não muito comportada, no seu devido lugar. Alias, se você quisesse saber o humor da menina, uma dica, tinha que observar o formato das sobrancelhas. Seus cabelos eram negros, bem cuidados, na altura da cintura, cacheados, o que só realçavam a beleza do conjunto.

As roupas que Giovanna usava não estavam em nenhum catalogo de uma casa da alta costura, muito pelo contrário, eram feitas, a mão, por Dona Sebastiana, que morava a duas casas abaixo. De qualquer forma, cada par de roupas que Giovanna usava caía nela como uma luva. Realçavam desde seu tornozelo até o ombro largo. Dependendo do comprimento da saia, ou do vestido, deixavam visíveis as belas pernas da juventude. Uma coisa não podíamos deixar de notar, a vaidade da Giovanna só ajudavam a destacá-la em qualquer lugar que fosse.

Mas como todo menina crescida numa família italiana, tradicional e católica, Giovanna levava uma vida bem monótona se compararmos com a sua amiga, Caetana, filha de um casal de amigos de sua mãe. Os conselhos de Caetana chegavam ao ouvido de Giovanna como fogos de artifício, que observávamos nas noites frias de Junho.

- Gigi, você tem que aprender a beijar! Puxa vida como é bom. Voce não sabe o que está perdendo – sempre que podia, Caetana cutucava a amiga, que retrucava:

- Ah, para com isso Caetana. Você hein?! Sua mãe sabe que você fica pensando nessas coisas?

- E por acaso Gigi você acha que eu fico só pensando? Eu não. Tenho meus pretendentes que me dão tudo que peço. Vou dizer uma coisa pra você, assim que der vou pregar uma mentira na mama, saio sexta-feira e volto só no domingo a tarde. Só Deus vai saber o que vou aprontar.

- Cruz credo! Replicou Giovanna, incrédula no que ouvia da amiga.

Desta forma, Giovanna, crescia ouvindo as estórias da amiga Caetana, e pensando se realmente aquilo era verdade ou não, e o que Dona Conchetta pensaria dela se por acaso caísse nos braços do Armandinho, a sua grande paixão. Os conselhos de Caetana só aguçavam os desejos da Giovanna. Aflorava seus instintos femininos. Sempre em contradição com sua educação até então. Mas com certeza o dia da descoberta estava próximo.

Armandinho trabalhava no mercadinho do bairro, o empório do Seu João, que ficava do outro lado da Praça 11. Fazia de tudo um pouco. Era praticamente o braço direito do dono, e só tinha tempo para pensar no trabalho. Acordava todos os dias às cinco da manhã, e após um café da manhã bem reforçado, a base de pão de lingüiça e um belo copo de café com leite, iniciava no batente antes das seis horas. Todo santo dia. Mal tinha tempo para sair nas noites de sábado e nas tardes de domingo. O cansaço era grande, e os deveres com a escola diminuíam muito o tempo da folga. Mas sempre havia um tempinho para observar a linda morena que as vezes entrava na vendinha e ficava escolhendo algum produto. Até parecia que a morena fitava ele pelo canto dos olhos. Era o que Armandinho pensava. Mal sabia ele que era exatamente o que acontecia. Também pudera, Armandinho era um bonito rapaz, cujo pesado trabalho que executava, tornearam seus músculos, e realçavam a cor morena que herdará de seus antepassados. Os cabelos lisos e arredios ajudavam a dar um ar de rebeldia ao jovem rapaz. A timidez impedia-o de ficar muito tempo na frente do mercadinho. O mais fácil de encontrá-lo era nos fundos do imóvel, próximo ao estoque de mercadorias, arrumando uma coisa aqui outra lá. As vezes, o patrão pedia, e ele a muito contragosto, tinha que executar as entregas das compras das freguesas. Pelo menos uma vez por mês ele tinha que se dirigir a casa de uma freguesa especial, Dona Conchetta.

terça-feira, 23 de março de 2010

A família que ampara

O bairro da Lapa sempre foi um bairro de pessoas abastadas, bem de vida, e de certa forma criava um antagonismo muito grande com o pessoal que vivia na Lapa de Baixo. A parte de Baixo era constituída em sua maioria de família com origem nas grandes fábricas do início do século XX. Marido e mulher se conheciam nas fábricas, casavam, ela se tornava dona-de-casa, e ele iniciava sua vida de arrimo. Bem diferente da parte da City Lapa.

Em sua maioria os moradores da Lapa de Baixo eram imigrantes de origem européia, principalmente italianos e portugueses. Na casa que ficava de frente ao quarto improvisado de Juca e Dita, de fronte a bela Sucupira, morava Dona Conchetta. Matriarca de uma família cujas origens se misturavam ao do bairro. Mãe de cinco filhos, os dois primeiros homens, Pedro e João Paulo, orgulhava Seu Pedro, o pai. Depois vieram Maria Clara, Lúcia e Giovanna. Praticamente não havia diferença de idade entre os filhos. Nasciam um após o outro. Nada diferente do resto dos moradores do bairro, quiçá do resto do país, nos idos dos anos 1950.

Seu Pedro, filho de italiano nascido no Brasil, era o retrato fiel de um homem que buscava a felicidade nas pequenas coisas da vida. Não se chateava com nada, a não ser o final de uma garrafa de vinho. De excesso a excesso ele levava sua vida com uma mistura de trabalho extenuante, e noitadas embaladas pela bebida e pela música. Não resistiu a um infarto fulminante, e deixou a esposa com a dura missão de cuidar dos filhos, e dar a eles um futuro menos medíocre. Os pequenos ombros desta mulher talvez não suportassem tamanha carga.

Dona Conchetta trabalhava dia e noite para cuidar dos rebentos. Sempre auxiliada pelos vizinhos, que a ajudavam nas tarefas, seja na de colocar comida no prato, ou como educar as crianças. A essência de uma comunidade se mostrava forte nessas situações. Trabalho não faltava, a vizinhança crescia e demandava mão-de-obra. Dona Conchetta não recusava. Faltava tempo para pensar num segundo casamento. Mesmo que tivesse tempo, talvez o coração daquela mulher-coragem tinha sido prometido a um único homem, o seu primeiro amor, e agora compartilhado com a única herança de Seu Pedro, os filhos. Eles representavam o que de mais precioso ela possuía.

Como toda família de origem italiana, Dona Conchetta era uma assídua freqüentadora da paróquia do bairro, a igreja São João Batista, que ficava a três quarteirões da Praça 11. Além de todo o trabalho que sua vida já lhe impunha, ela ainda se colocava a disposição da comunidade em trabalhos voluntários, no atendimento aos menos favorecidos. Conforme o tempo passava, ela se dedicava cada vez mais em atividades humanitárias. Neste ponto, tanto ela quanto o pároco, praticavam os mandamentos de uma forma bem mais pontual. Como ela sempre disse: “- Na minha casa nunca faltou comida. Se eu tivesse condições, em nenhuma outra casa jamais faltaria alimento.”. Porem, o que Dona Conchetta não sabia é que sua alma se alimentava por causa dos seus gestos.

O tempo foi passando, os filhos crescendo, e cada um buscando o seu caminho. Só sobrou a filha mais nova na casa, Giovanna. Mas como a vida é cíclica e se renova a todo instante, Dona Conchetta começou a ver sua família se expandir através dos casamentos dos filhos, e no nascimento dos netos. Ela pensava, “- Puxa vida, o Pedro deve estar rindo a toa, aonde ele estiver agora.”.

O que Dona Conchetta não sabia era que iria ganhar um novo filho. Um não, dois, Juca e Dita. Além do Pelé, como mascote.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Vida modorrenta de um pacato casal de mendigos

Juca é o homem, a mulher atende por Dita. O cão é o Pelé. Parece coincidência, mas todo mendigo tem um cachorro. Talvez porque o sentimento de posse pode ser sentido e exercido. Mesmo um mendigo tem a necessidade disso. Filho de Deus.

A moradia é a Praça 11 de Setembro, na Lapa de baixo. Lá, além de ser o refúgio à noite, tem a função de servir como um pequeno estoque de quinquilharias coletadas no dia-a-dia, e carregadas em sua carroça de madeira podre. Se pudesse valorizar este estoque talvez desse para um ou dois almoços, no máximo.

Com um punhado de papelão usado eles montavam duas camas. Ao lado da cama artesanal, as paredes se erguiam baseadas em estacas de madeira dispostas formando uma gaiola, forradas de plástico, onde dava.

Os travesseiros eram as mochilas surradas que carregavam sempre junto ao corpo. O medo da perda do pouco que tinham era quase mortal. Ao lado do travesseiro de Juca, ele sempre depositava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, e fazia questão de proferir palavras de carinho e adoração. Isso quando a cachaça deixava. O que cada vez mais rareava.

Juca era um negro forte, forjado na vida dura que seus antepassados vivenciaram. Marcas por todo o corpo. Ninguém nunca perguntou se as marcas eram fruto de briga ou da dureza da vida na rua. Um pouco dos dois talvez. Suas mãos calejadas viviam sujas da poeira da cidade grande. Retratavam um pouco do trabalho que o acometia. Os olhos, de íris cor negra, eram portais intransponíveis que registravam uma vida dura, vazia de esperança, sofrida. Os músculos da perna e dos braços eram bem definidos, conhecedores da importância que tinham para o dono. Se a inteligência escasseava, os músculos sobrepujavam. Os trapos que vestia, fruto de doações de desconhecidos, vira e mexe eram trocas por novos, se é que devíamos utilizar este adjetivo para descrevê-los.

A mulher, Dita, nascida Benedita da Silva, no Rio de Janeiro, há muito tempo atrás, tanto que nem se lembra mais quando. Mulata que na adolescência apresentava dotes que a qualificariam como uma futura mulher de sambista, quadris largos, coxas grossas, pernas compridas. Mas que o tempo tratou logo de colocá-la no seu lugar. Lugar de uma esposa de mendigo. Perdeu os pais bem cedo, cuidou dos irmãos até a polícia cuidar deles. Caiu no crack, na bebida, e só depois de um atropelamento que dilacerou uma das pernas, e que obrigatoriamente, tirou-a seis meses da rua, conseguiu (ou foi obrigada?) se livrar das duas malditas. Conheceu Juca num albergue do Cambuci, e se tornaram sócios, cúmplices em pequenos delitos, e resolveram dividir tudo do pouco que tinham. Tornaram-se amantes. Viraram marido e mulher. Sabe se lá Deus como.

A Pelé, o cão, um vira-lata preto e branco, que foi adotado numa dessas coletas qualquer, num dia chuvoso, a função era de guarda, sem mesmo ter pedigree para isso. Pelé, por gratidão aos donos, à noite, era capaz de mostrar os dentes para qualquer um que se atrevesse a se aproximar do apartamento do casal. Aí de quem, até mesmo sem querer, cruzasse a Praça 11, próximo de Pelé. Corria-se o risco de ter que buscar ajuda num farmacêutico do bairro.

Poucos que passavam pela Praça 11 observavam o casal Juca e Dita. Não tinham tempo para isso. Mas os poucos que ainda mantinham um espaço de tempo ocioso em suas vidas podiam ver como o casal, e seu fiel escudeiro, representavam no teatro da vida, um casal, quase, perfeito. Ou será que eram perfeitos mesmo?

O dia começava logo ao raiar do sol. Ou ate antes. O sentimento era de que o “quarto” do casal deveria ser desmontado e guardado na carroça antes dos vizinhos “reais” saírem do casulo que chamavam de lar, e adentrarem cada um na sua ciranda particular.

Rapidamente todas as tralhas eram recolhidas por Juca e acomodadas na carroça. Pelé sempre o acompanhava na atividade rotineira e sem graça. Para nós. Mas para o cão aquilo era uma brincadeira sem fim. As tralhas seriam trocadas por um punhado de reais no ferro velho do Seu Alfredo, perto da Marginal do Tietê, ao lado do viaduto da Freguesia.

Era uma boa caminhada. No trajeto de ida, recolhiam mais alguma coisa jogada, ou esquecida, na rua, pela burguesia paulista. Trocavam pelos caraminguás que iriam se transformar na única refeição do dia. Na volta, sempre por outras ruas, iniciavam a coleta de novo, com destino ao apartamento da Praça 11, próximo às Sucupiras. Numa roda vida sem fim.