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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - Giovanna e o seu Dom

A bela Giovanna guardava dentro de si muitas bondades que nem todo mundo sabia que existia. Ela sabia que havia algo que poderia utilizar para mudar algo na vida das pessoas. Sua capacidade de ensinar. Seu desejo de ver o próximo adquirir conhecimento sobre alguma coisa. Na verdade o que os outros enxergavam como profissão, ela via como prazer. Sentar ao lado de uma pessoa que nada sabia e iniciar um aprendizado, gratuito que fosse, era para a jovem Giovanna um ação de prazer inenarrável. A ideologia que aflorava sem que ela notasse essa presença. Sentia que algo poderia fazer para melhorar as coisas no mundo. Pura ideologia.

Quando os mendigos vieram ocupar o espaço dos fundos de sua casa, ela pensou que poderia dar a eles muito mais do que simplesmente um abrigo ou refeição, mas sim algo que pudesse fazê-los cidadãos. Só não sabia se sua empreitada seria aceita por eles. Nem sempre as pessoas reconhecem aqueles que querem ajudar. Não reconhecem a diferença entre ajudar a crescer e somente amparar. De qualquer forma, ela entendia de que deveria conversar com eles para saber se havia alguma chance de sua forma de ajuda ser aceita.

A experiência de Giovanna era restrita ao tempo das aulas de catecismo na igreja São João Batista, próxima a sua casa. O ar angelical que ela prestava ao curso era mais do que bem-vindo pelo pároco Moisés. A capacidade de contar uma simples estória como se fosse uma epopéia para os jovens alunos transformara aquela menina em jóia da coroa. Não era fácil levar até a comunidade as lições católicas, principalmente numa época onde o educador não era mais visto como sendo a figura principal, aquele que precisava ser respeitado por todos a todo instante. Infelizmente a juventude via na figura professoral algo que tinha que ser transgredido, pois representava uma repressão do passado. Mas aí surgiu Giovanna, a linda italianinha com uma vontade de passar adiante o conhecimento aos jovens aprendizes. Não havia ninguém que conseguisse demover os alunos de assistir suas exposições. Havia muito amor naquilo.

Giovanna observava o casal de mendigos que ocupavam os fundos de sua casa, e via ali uma oportunidade para mostrar para todo mundo que havia chance de mudar o rumo das coisas. Sentimento esse que talvez não fosse compartilhado com todo mundo. Nem sempre um ato que demonstre ajuda é amparado por todos. Quando se tem algo para se mostrar a alguém e isso fica reprimido dá uma dor de coração que ninguém agüenta. Estava na hora de Giovanna saber se haveria espaço para tal atitude.

Na sua época de professora de catecismo Giovanna recolheu muito material que estava jogado nos fundos da igreja. Parte desse material ela doou para uma biblioteca municipal que ficava próxima à praça. Mas, um punhado de livros didáticos ela reservou para uma necessidade futura. Na verdade, ela não queria se separar de um punhado de linhas e letras que poderiam fazer alguma diferença no futuro. Numa dessas mexidas em suas coisas ela descobriu algumas cartilhas que eram utilizadas no passado para aprendizado de adultos. Uma atividade que a igreja tinha, respaldada pelo governo, auxiliando na disponibilização do material básico. Isso, mais lápis e borracha faziam o kit básico necessário para começar as aulas.

Faltava saber se os mendigos pensavam da mesma forma. E não há como saber se não perguntar. Mas e o medo? Ela estava na verdade contando tanto com isso que o medo não deixava extravasar seus anseios. Bom, na verdade nem sabia se eles eram analfabetos ou não. Tinha que perguntar. Mas como? Só tinha um jeito, ir lá.

Giovanna esperou o retorno deles da rua, ao final do dia. Ao chegarem, percebeu no semblante deles de que algo não muito bom aconteceu. A preocupação tomou lugar da expectativa em indagá-los sobre as aulas. Giovanna disse:

– Meu Deus do céu, o que aconteceu? Vocês estão tão pálidos? O que houve? – Giovanna foi dizendo isso e segurando no braço de Dita, enquanto Juca levava sua carroça para os fundos da casa.

– Num foi nada não! – respondeu resignada a pobre Dita. Resposta tão sem veracidade que ao falar isso Dita começou a enxugar as lágrimas que começavam a cair.

– Como não foi nada Dita?! Dá pra perceber nos rostos de vocês de que algo ruim aconteceu. – Insistiu Giovanna.

Eles relataram o que havia ocorrido. Da forma como foram abordados ao coletarem papelão perto do Ceasa. Não havia como não ficar chocado com tudo isso. Mesmo porque não dava para entender o motivo que levava a uma situação tão traumática. Mas o fato de relatarem a história para Giovanna foi acalmando os dois, Juca e Dita. O rosto da linda Giovanna com ar de preocupação por eles transformara aquele momento em único. Nunca tinham visto tão compaixão por eles expressada por ninguém. O ocorrido no dia tinha abalado de sobremaneira Dita, mas não podia se dizer de Dito, pois ele já estava bem acostumado com a frieza e maldade que encontravam no dia-a-dia na coleta de reciclados. As pessoas nem sequer percebiam suas presenças. Pareciam que era o lixo da sociedade. Povos que deveriam ser extintos. Nem sequer deveriam existir, andar, ou falar com os “humanos”.

Mas o melhor estava guardado e eles não sabiam. Após ouvir todo o relato do ocorrido por Dita, Giovanna já com seu semblante carregado de raiva e com vontade de buscar a solução com suas próprias mãos. Mãos que não mereciam sequer ser usada em nenhum trabalho braçal tamanha era a beleza dos dedos. Soltou a frase que iria mudar o dia deles, e o dela também:

– Bom, acho que vocês deveriam passar por cima disso tudo, esquecer o que aconteceu hoje, mas talvez rever a forma como vocês estão levando a vida. Gostaria de saber até onde vocês foram nos assentos escolares. Até onde vocês estudaram. Se é que vocês já foram para a escola.

Aquela pergunta não estava sendo esperada, nem hoje nem nunca. Ninguém. Absolutamente ninguém havia um dia se dirigido para aqueles dois mendigos e demonstrado algum interesse em saber do passado deles. Só restava às pessoas olharem os mendigos e imaginarem um futuro cada vez mais piorado. Eles não estavam esperando que alguém lhe perguntasse algo semelhante. Dita falou:

– Óia dona Giovanna, para ser bem sincera, eu e Juca não sabemos nem escrivinhar. – A fala de Dita não poderia ser mais sincera e demonstrar toda a necessidade de um individuo em obter algo que deveria ser básico a todos. A comunicação.

Giovanna guardou as lágrimas para ela. Infelizmente ou felizmente, era a resposta que ela esperava. Não podia ter algo melhor para se ouvir do que a oportunidade de utilizar seu conhecimento em prol do outrem. Aquilo caiu como uma luva nos interesses de Giovanna em demonstrar todo o seu conhecimento em alfabetizar uma pessoa. Claro que ela não tinha praticado com ninguém ainda, porém algo de bom estava por vir. Ela via naquela situação uma oportunidade para demonstrar a todos de que algo poderia ser mudado na vida daqueles dois mendigos. A felicidade de Giovanna não cabia dentro daquele corpo minúsculo.

– Bom, então começamos amanhã à noite as aulas de alfabetização. Vou fazer vocês a aprender a ler e escrever. Vocês vão ver o bem que faz isso para todos nós. Nossa! Não vejo a hora para começar!

Juca estava literalmente de boca aberta. Não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Se alguém pudesse bater uma foto e mandar para os jornais, teria que ter uma legenda para exprimir o que ele estava sentindo naquele momento. Não poderia acreditar que uma moça fina e elegante, que se vestia como se fosse uma princesa, uma beleza impar, pudesse acreditar que dois burros xucros poderiam ser educados de tal forma que iriam ler e escrever! Não estava acontecendo isso! Ou estava?

A Dita estava em prantos novamente. Agora, era por uma boa causa. Antes, amargará uma experiência inédita de quase ver o marido levar um tiro nas fuças. E agora, depois de toda a tormenta que viveram, quase queimados por um bando de malucos em praça pública, ganharam um cantinho para morar, e vem a filha da dona da casa informar que iria dar aulas à eles! Meu Deus do céu, o que está acontecendo? O mundo pirou e não me avisaram? Tinha alguma coisa a dizer além de:

– Mas é claro que queremô, dona Giovanna, quando podemos começar?

sábado, 4 de setembro de 2010

Capítulo 13 - A Teimosia de Rico

– Não! Não, e não, Rico! Você pensa que somos ricos? – por essa reação de Josefá ele não esperava. Só porque Rico disse a sua esposa que estava pensando em ajudar os mendigos a ter seu próprio teto. Mas ao falar para a esposa que ele pensava em construir uma casa para eles, houve a reação.

Ela argumentou que eles não tinham nenhuma obrigação com o casal de mendigos. Alias, eles não tinham obrigação com ninguém. Se alguém deveria se preocupar com os mendigos esse alguém seria o governo.

– Rico, por que você não vai pedir isso lá na Prefeitura? Quem sabe eles dão duas casas, uma para eles e outra para nós! hein? – ridicularizou a esposa.

Josefa continuou a sua argumentação, que como sempre era mais forte do que a de Rico. Dizia a ele que hoje em dia ninguém se preocupa com ninguém. Se não fosse a Dona Conchetta amparar os mendigos, quem o faria? Ninguém, ela repetia. Não haveria de ter nenhum órgão oficial que se preocupasse com o bem-estar deles. Era só ver como deixaram eles chegar àquela situação. Dormir no relento, embaixo de uma arvore, numa praça qualquer da cidade. Comendo sabe lá o que. Por que teriam que ser eles, Josefá e Rico, os escolhidos para dividirem o pouco que tinham? Mesmo que eles tivessem alguma economia guardada, será que deveriam usar para um novo teto para os mendigos? Ela pensa que a resposta é não.

Mas o instinto de Rico é o de ajudar. Não importa para que e a quem. Ele começou a relatar a idéia que teve:

– Olha só, Josefá, nos fundos da casa de Dona Conchetta há espaço suficiente para subirmos um sobradinho. Lá já tem um quarto de bagunça que o finado, seu Pedro, tinha construído com a idéia de que no futuro houvesse um espaço para um dos filhos usar. Pois bem, toda a fundação, o alicerce, já está pronta. Só precisamos reforçar as paredes, construir a laje, e ... – Josefá não permitiu que ele terminasse a frase.

– Rico, para! Não tem sentido isso. Você tem mania de ajudar todo mundo. O que você ganha com isso? Nada. E, pior, com que dinheiro você fará tudo isso?

– Dinheiro não é problema. Eu converso com o Padre Móises e ele dá um jeito. – retrucou Rico.

– Rico você precisa ser internado. Você acha que o Padre Móises tem dinheiro sobrando? Se tivesse dinheiro ele já teria arrumado a torre da igreja que está quase caindo na cabeça das pessoas. Fica fazendo quermesse atrás de quermesse para atrair o dinheiro do povo, para ver se junta uns trocados e conserta o que precisa ser consertado. Você pensa que vai chegar lá e pedir dinheiro e o padre vai lhe dar, como se desse bom dia? Não é possível. Rico, de que mundo você veio?

Josefa estava certa. Como sempre acontecia. Ela era a razão. Ele sempre o devaneio. Mas ela sabia o tamanho do coração do marido. Tinha sido a principal razão por ela se apaixonar por aquele rapaz que chegou do interior de São Paulo com muita vontade para mudar o sentido das coisas. A vida não era simples. As pessoas que não se esforçam não chegam a lugar algum. Não era o caso de Rico. Desde o primeiro dia dele na cidade grande não houve moleza nem tempo para descanso. Trabalhou duro deste o principio. Não haveria melhor rapaz para uma moça casar, mesmo que não tivesse um pingo de cultura e tivesse que terminar os estudos, mal começado. Talvez por todas as dificuldades que ele presenciou, seja na própria vida ou das pessoas que o cercava, ele carregava sempre bons pensamentos para ajudar as pessoas. Não importava o quanto isso representava de sacrifício na vida

– Entendi, Josefá. Você tem razão no que diz. Mas, vou procurar o Padre Móises e ver de que forma podemos ajudar os mendigos a ter um cantinho só deles. – Rico disse isso e já foi saindo de casa, provavelmente se dirigindo à igreja.

Josefá simplesmente olhou para o teto e bufou. Pelo jeito, tudo o que ela tinha dito foi em vão. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro lado sem fazer efeito algum no cérebro tamanho de ervilha que o marido tinha.

Mas será que o Padre Móises ajudaria Rico em sua empreitada maluca? Dois loucos?

Capítulo 12 - O Novo Primeiro Dia de Trabalho

No rescaldo que fizeram no dia posterior ao acidente, Juca e Rico perceberam que tudo havia sido perdido, com exceção da carroça que eles usavam no dia-a-dia. Parecia que nem tudo estava perdido. Com um pouco de manutenção, a carroça poderia ser utilizada novamente. Era uma boa notícia no meio de tantos desencontros.

Ao amanhecer naquela segunda-feira, Juca se pôs de pé e chamou Dita. – Acorda Dita, vamô trabaía. – O sol ainda não tinha brilhado seus raios no bairro e eles já estavam abrindo o portão e saindo para a rua. O destino deles era incerto. Só sabiam que deveriam voltar ao cotidiano. Eles tinham recebido uma benção. Agora deveriam fazer por merecê-la. Isso, eles só conseguiriam se dessem a volta por cima. Tentariam a partir desta segunda-feira.

Mudaram o itinerário e se dirigiram para o Ceasa que ficava a poucos quilômetros dali. Era uma boa caminhada mas que poderia render bons frutos. Como sempre, Juca ia à frente puxando a carroça, Dita mais atrás e o cão Pelé como fiel companheiro, ao lado. A consciência da população com a reciclagem tinha sido benéfica a eles. Cada vez mais, as pessoas separavam o que era lixo e deveria ser descartado nos lixões, daquele que é material com possibilidade de reciclagem. Mas, paralelamente, a profissão deles, catador de papelão e afins, estava se tornando uma opção para um grande número de desempregados e migrantes, transformando em disputa o trabalho deles.

Ao chegarem ao Ceasa o resultado da coleta não tinha sido muito generoso com eles. Poucas coisas haviam sido descartadas. Mas se depararam num dos portões de entrada do estabelecimento, com uma grande pilha de papelão que tinham sido descartados, aparentemente, por comerciantes do local. Não pensaram duas vezes. Começaram a coletar os papelões e lançar à carroça. Parecia que a sorte estava mudando de lado. Aquele mundaréu de papel representaria um bom dinheiro. Para o primeiro dia de trabalho não poderia ter coisa melhor.

Logo após começarem a coleta do papelão perceberam a presença de um velho caminhão que se dirigia ao local. O caminhão parou quase que colado a carroça deles. Desceram da boléia dois homens, e da parte de trás mais três homens. Todos mal-encarados. Aproximaram-se de Juca e foram logo dizendo:

– Quem lhe deu ordem para mexer em nossas coisas, seu bosta? – a frase de cartão de “boas vindas” não poderia ser uma das piores. Um calafrio tomou conta do corpo, tanto de Juca quanto de Dita. Perceberam que a coisa poderia ficar feia.

– Peraí amigo, to só trabalhando. Tô tentando fazer meu dia. – Tentou argumentar Juca, na esperança de que a situação fosse amenizada. Mas sabia que era um argumento fraco. Sabia que não ia ter jeito.

– Então vai procurar sua turma! Você vai tirar todo o papelão dessa sua carroça e deixar no mesmo lugar que encontrou. Essa carga aí é minha. Esse é o nosso território. Vocês pensam que podem chegar e se apropriar de nossas coisas?

– Não é isso seu moço – falou Dita – é que chegamos aqui e encontramos esse monte de papelão jogado, aí achamos que podíamos pegar e ir embora.

– Pois pensaram errado véia – falou um dos homens que havia descido da parte de trás do caminhão – podem desfazer o que fizeram. Alias, se quiserem tirar as coisas da caroça e ir embora, tudo bem. Caso contrário, nois vamo destruir suas coisas também.

Não havia opção. Eles entenderam o recado. Juca, então, começou tirar o pouco papelão que já havia colocado na carroça. Cabisbaixo e derrotado. Sabia que ali não era hora nem momento para discussões. Mesmo porque, não seria somente ele que seria castigado. Dita e Pelé não mereciam passar por aquilo. Será que o pesadelo que aconteceu com eles naquela fatídica sexta-feira iria continuar? Não era possível isso. De qualquer forma, o que deveriam fazer era amenizar a situação. Rapidamente eles tiraram todo o papelão e colocaram no mesmo local que o encontraram. Quase que instantaneamente os homens puseram a coletar o papelão e jogar para dentro do caminhão. Nisso se aproximou o motorista, e deveria ser o chefe do bando, e falou:

– E outra coisa, aqui é nosso território de coleta de papelão. Três vezes por semana a gente faz a coleta. Os donos dos estabelecimentos já nos conhecem, e sabe que é assim a coisa. Sabe como é? Uma mão lava a outra, se é que me entendem. Se vocês aparecerem de novo aqui a coisa vai ficar bem feia. Tá ligado? – falando dessa maneira e levantando a camisa, deixou à mostra um revolver. A intimidação estava completa.

– Sim, senhor. – Disse resignado Juca, abaixando a cabeça e começando a puxar a carroça para o meio-fio. Dita e Pelé seguiram-no. Havia de ter algum outro lugar para se coletar papelão.

Pelo jeito, a maré de má sorte ainda estava acompanhando eles. Mas como dizem, há males que vem para o bem. Será?

Capítulo 11 - Os cuidados de Mama Conchetta

– Que Padre mais maledito!!! Farabutto!

Essa foi uma das primeiras reações que Dona Conchetta teve ao ouvir de Rico o relato da conversa que ele teve com o padre Móises. Uma reação nada cristã por parte da Mama, e que com certeza não estava sendo aguardada. Rico, então, deve que amenizar um pouco mais seu relato, pois a coisa poderia ficar mais feia do que já estava.
Dona Conchetta quando calma já é um perigo, imagina quando a italiana ficava nervosa. Aí ninguém segurava.

Ainda bem que Rico trazia várias peças de roupas usadas que haviam sido doadas à Igreja. Além de alguns remédios básicos que o Padre Móises tinha exigido que ele levasse aos mendigos. Não era muita coisa, mas já demonstrava que a comunidade estava do lado deles.

Dona Conchetta se acalmou, afinal de contas o que valia mesma era a intenção do Padre Móises em ajudá-los. Mesmo porque, racionalmente falando, o que ela tinha feito em acolher os mendigos não era algo comum, principalmente nos dias de hoje. Portanto, a preocupação que o Padre mostrou nada mais era do que uma reação de alguém preocupado com elas.

– Dona Conchetta, pode ficar tranqüila que eu dei a minha palavra ao Padre Móises de que eu seria o responsável pelos mendigos enquanto eles permanecessem em sua residência. – Rico tentou amenizar a situação.

– E quem disse que eu preciso que alguém responda por mim? Rico, você está ficando louco? Desde que o meu marido faleceu que eu toco a casa e as crianças, sem precisar de homem de calças aqui para dizer o que preciso fazer, para onde devo ir. Onde já se viu uma coisa dessas! – Reagiu a Italiana.

– E outra coisa – continuou a Mama – você pegue as tralhas que trouxe da Igreja e leve para o quarto dos fundos e entregue para dona Dida. Ela sabe bem o que fazer com isso. Bem, também não esqueça de agradecer ao Padre por mim, e diga que se ele tiver um armário velho lá, pode trazer porque eles vão precisar. E me passe a lata de molho. – as vezes Rico não entendia direito para que lado deveria ir, mas isso só fazia parte do mundo da italiana e seu jeito meio bronco de ser. Mas o coração daquela mulher era maior do que o de todos naquela vizinhança.

Tudo isso aconteceu em volta da mesa na cozinha, do lado da pia e do fogão. O cheiro que emanava era o mais aconchegante possível. Aquilo fazia parte do ritual da casa. Todos em volta da Mama e suas comilanças. As vezes na cozinha haviam mais pessoas do que no resto da casa. Era lá que as broncas e os mimos aconteciam. Juntamente com todas as histórias e fofocas do bairro. Uma das coisas que não era permitida naquela casa era entrar e não comer nada. E olha que a Mama tinha uma mão boa para os pratos.

Nos domingos então, como este, era o dia em que a casa ficava cheia. Além deles, Giovanna estava lá com sua amiga Caetana. Logo depois chegou Josefá para se juntar ao marido. Além deles haviam os novos hospedes, Juca e Dita, que não se misturavam. Ficavam sempre nos fundos da casa, mexendo em algo. De qualquer forma, todos iriam comer na mesma mesa, compartilhar os mesmos pratos. Era uma verdadeira confraternização.

Após o almoço todos ajudavam na limpeza. Um lavava a louça, outro enxugava. Outros limpavam a mesa e a cozinha. Normalmente nesta hora, mama Conchetta, sentava em sua cadeira de balanço que ficava na sala como se fosse aquele o presente merecido que ela se dava, por um dia cansativo. O que não durava muito, pois logo ela decidia fazer algo, um bolinho de chuva, ou simplesmente um café forte, e levantava da cadeira.

Quem não estava muito a vontade com aquela situação era Juca. Após o almoço se recolheu aos fundos da casa, sentou numa cadeira que havia e pôs-se a pensar no dia seguinte. Seria o dia que ele iria voltar à labuta. Agradecia muito a ajuda que todos estavam mostrando, mas precisava voltar à sua rotina. Amanhã será um novo dia, era o pensamento que ele fomentava naquele instante.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Capítulo 10 - Giovanna e Armandinho

Com a nova situação que se instalava na vizinhança da Praça XI a partir daquela fatídica noite de sexta-feira, tudo parecia estar fora do eixo. Tem coisas que acontecem na vida das pessoas como se fosse uma predestinação. Armandinho não saberia distinguir entre ocaso e a coincidência, mas o certo é que estava gostando daquele momento. Todos os vizinhos de Dona Conchetta ajudavam como podiam na tarefa de cuidar dos novos moradores. Um dos mais atuantes era Armandinho. Ao sair para suas entregas diárias com destino às casas das freguesas, sempre tinha tempo para dar uma parada e ver se precisavam dele na casa da italiana. Dona Conchetta já tinha percebido que além da boa vontade com os mendigos, o que chamava atenção daquele rapaz respondia por outro nome, Giovanna.

A bela morena Giovanna correspondia à altura. Parecia que ela sentia a presença do rapaz na casa. Era só o rapaz chegar para perguntar se precisavam de algo, Giovanna aparecia do nada para responder que estava tudo bem, tudo em ordem.

Essa rotina de Armandinho tinha colaborado com a melhora na forma como o rapaz se vestia. Além de melhorar a forma como se expressava. Nas idas de Dona Conchetta ao mercadinho, ela tinha reparado que aquele rapaz, apesar de bonito, mais parecia um burro xucro no atendimento aos clientes. Agora não mais. Era pura atenção. Dedicado e atencioso com todos. – O que será que aconteceu? Indagava-se Dona Conchetta.

Outra que havia percebido que algo estava mudado era Caetana, a fiel companheira de Giovanna. Ela já havia percebido que ali estava iniciando uma paixão que não poderia ser contida. Caetana não deixava por menos. Colocava lenha na fogueira de Giovanna.

Instava a amiga a buscar se aproximar cada vez mais do rapaz. Como se fosse ela a contemplada. Numa dessas visitas de Armandinho à casa de Giovanna, Caetana lá estava e após a saída do rapaz, comentou com a amiga:

– Gigi, o que você está esperando? – comentou Caetana sem tirar os olhos do chão, deixando no ar um cheiro de suspense.

– Como assim Caetana, do que você está falando?

– Ora Gigi você pensa que me engana? Tá na cara que você está caída pelo pobretão do mercado. – Caetana não poderia ter escolhido melhor as palavras. Desta forma iria despertar a ira da amiga.

– Ele não é pobretão não! – era a reação que Caetana aguardava de Giovanna. Ela não poderia ter mostrado mais interesse pelo rapaz do que defendê-lo da galhofa da amiga.

– Tá vendo? Já está defendendo o rapaz. Meu Deus do céu! Vocês acabaram de dar teto a dois mendigos, e agora você adota um pobretão. Você está parecendo a Madre Teresa de Calcutá – após isso, Caetana caiu em plena gargalhada, satisfeita com a piada rapidamente montada.

– Caramba Caetana, você não tem noção! – já refeita da armadilha que tinha acabado de cair, Giovanna pôs-se a falar sério com a amiga – Sabe Caetana, toda vez que vejo o Armandinho me dá um calor, sei lá, uma bateção no coração. Tenho vontade de correr e abraçá-lo. Será que ele sente o mesmo por mim?

– Só tem um jeito de saber! – Caetana soltou mais um de seus balões de ensaio. Disse isso olhando para suas unhas e assoprando-as, como se tivesse acabado de pintá-las.

– E qual é? – Giovanna caiu mais uma vez na armadilha da amiga – Vai Caetana, desembucha, diz logo.

– Olha amiga vou te dizer mais uma vez, e que seja a última hein. Você tem que pegar o Armandinho pelo braço, a força, levá-lo até o seu quarto, e...– antes que terminasse a frase, foi interrompida pela reação da inocente Giovanna que havia percebido que boa coisa não sairia da boca da espevitada Caetana.

– Cala a boca Caetana, você só pensa em besteiras!

– Uê, em mais o que você quer que eu pense? – Caetana disse isso acompanhada de uma careta de indignação. – Por acaso tem coisa melhor, tem?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Capítulo 9 - A Nova Casa

A nova moradia que o casal Juca e Dida compartilhava estava mais para um palacete do que qualquer outra coisa. Para quem dormia no relento há tanto tempo, ter um telhado por cima de sua cabeça ao descansar a noite fazia uma grande diferença. Mas aquilo que para qualquer um poderia ser considerado uma sorte danada, não era visto desta forma pelo casal. Imagine você fazendo sempre uma determinada coisa, e de repente, totalmente fora de seu controle e da sua vontade, acontece de você perder o local que era seu porto seguro, e ter que conviver em um novo espaço? Talvez não exatamente com este pensamento rebuscado, mas com o mesmo sentido, era o que Juca estava a matutar.

Eles não poderiam reclamar do aconchego do lar de Dona Conchetta. Tinha ar de casa de campo. O amor despendido a eles tanto pela dona como pela sua filha, Giovanna, era algo tão diferente do que já tinham sentido. Era um amor de mãe para filho.

Somente uma pessoa que gostasse realmente da outra poderia ofertar seu próprio teto para compartilhar.

Não que utilizassem o mesmo teto. O quarto dos fundos onde estavam Juca e Dita, era na verdade um quarto onde se guardava qualquer treco que não fazia mais parte do dia-a-dia da família. Mas agora, estavam armazenando duas almas que precisavam de compaixão. E mais do que isso, começavam a participar do cotidiano da família.

O quartinho era de alvenaria. Paredes rebocadas com uma demão de tinta que denotavam a necessidade de uma nova pintura. O chão era batido com cimento cru. Prateleiras que se estendiam de um lado ao outro do quarto, apinhadas de quinquilharias. Uma pequena janela de ferro, pequena e que não fazia muito sentido estar ali. De qualquer forma, tratava-se de um quarto que comportava duas camas de solteiro, as quais estavam com novos hospedes. Havia até uma bancada no outro canto, com várias ferramentas espalhadas como se alguém tivesse mexido neles à muito tempo atrás.
Mesmo porque não dava para imaginar nem Dona Conchetta ou Giovanna mexendo ali.

Do lado de fora do quartinho, encostado na parede, havia um tanque velho de cimento à disposição de Dita para lavar os velhos trapos. Ao lado do tanque havia um banheiro com uma privada e um chuveiro. Não havia luz no banheiro o que dificultava um pouco o uso para uma pessoa normal e exigente. Mas para Dita parecia que estavam na suíte presidencial de um Hotel cinco estrelas no centro da cidade.

Às vezes o que incomodava Juca era a falta das oportunidades de dar um gole na cachaça. Não que fosse um alcoólatra, em sua opinião, mas gostava de compartilhar, principalmente no final do dia, uns goles com sua companheira. Dita achava que tomar uns goles com Juca fazia parte de um ritual diário e que não entendia porque a busca louca do companheiro pela “maldita”. Mas como aquilo era exercido desde há muito tempo atrás, ter que interromper imediatamente a rotina era algo que incomodava, com certeza. Mas não se sentiam tão a vontade na casa da matrona Dona Conchetta de abrir uma garrafa de cachaça e entornar o líquido. Mesmo porque, vai que no calor da emoção eles se excedam. Seriam tachados de mal-agradecidos e “bebuns”. Aí sim prevaleceria a previsão do Padre Móises.

Mas o que Juca mais queria era retornar a sua diária de catador de papéis e papelão nas ruas de São Paulo. Claro que era algo extremamente cansativo do ponto de vista de coletar e carregar peso. Mas, por outro lado, o convívio com tantas pessoas pelas ruas era algo que trazia algo de gostoso para Juca. Estava sedento de que chegasse a hora de voltar ao seu cotidiano. O que na verdade estava prestes a acontecer. Só precisavam recuperar um pouco a alta estima.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Capítulo 8 - A reação do Padre Móises

– Meu Deus do céu! Vocês ficaram loucos? – foi a reação que o Padre Móises teve ao ouvir de Rico o que tinha acontecido na Praça XI no dia anterior. Mas o que mais incomodava o padre era o fato de que o casal de mendigos estava alojado na casa de Dona Conchetta.

– Padre Móises aonde o senhor queria que levássemos o casal? Não havia outra opção. Além do que Dona Conchetta não nos deu alternativa. Simplesmente os colocou pra dentro da casa dela, e já deu alojamento a eles.

– Rico você tem noção do que vocês fizeram, hein? Dona Conchetta mora sozinha naquela casa junto com sua filha Giovanna. Duas mulheres indefesas à mercê de um casal de mendigos. Que mundo que estamos vivendo! A qualquer momento pode acontecer uma desgraça lá. – retrucou o padre.

Rico entendeu perfeitamente onde o Padre Móises estava querendo chegar. O problema que aflige o casal de mendigos, Juca e Dita, não é importante. Mas o que seria mais importante? As instituições governamentais não estão nem aí pro cidadão marginalizado. A igreja não consegue observar um gesto lindo de acolhimento do próximo, e só consegue ver perigo onde não há. Só resta à sociedade se arrumar como pode e abrigar os irmãos. Mas a ação do abrigo não deveria ser exercida justamente pela igreja à qual Padre Móises representa? – Cruz-credo! – Rico bateu na boca. Seus pensamentos estavam traindo sua fé e seus dogmas. De qualquer maneira, a posição que o Padre Móises estava tomando não resolvia a principal questão: Como ajudar o casal Juca e Dita a se levantar?

– Padre, o senhor pode ficar tranqüilo, pois assumo inteiramente a segurança delas. Compreenda, é um casal de mendigos. Além do mais, se trata de um casal de pessoas quase que idosas – tentou argumentar Rico, apesar de que Juca um negro brutamontes não poderia simplesmente ser ignorado. Num momento de loucura, ou então com uns goles a mais na cabeça era capaz de fazer tanto Rico quanto o padre Móises correr de medo. Só de imaginar a cena, Rico teve vontade de rir. Mas o momento não era para isso.

– Está bem Rico, me conta, como foi que aconteceu essa tragédia?

Rico pôs-se a relatar o que aconteceu na noite anterior, a brutalidade dos vândalos, o risco de vida que o casal de mendigos correu, a reação imediata da vizinhança, e mais do que elogiada atitude de Dona Conchetta em abrir a porta de sua casa para ajudar os necessitados.

Padre Móises que representava uma ala mais tradicional da igreja enxergava na sua comunidade um rebanho que precisava de cuidados a todo instante. Repensou a situação e percebeu de que nada adiantava ir contra o que eles haviam decidido na noite anterior. Na verdade, ele começou a sentir uma satisfação muito grande dentro do seu peito. Seu coração começou a ficar mais apertado quando entendeu que aquela era uma reação mais do que cristã. Era cidadã. Demonstrava toda a maturidade que seus filhos cristãos atingiram. Porque, mais importante do que as palavras que ele usava na homília nas missas, era a prática da fé e de irmandade que aquela gente praticou no dia anterior.

Rico percebeu que a situação estava sendo assimilada pelo pároco e que chegara a hora de ter o que tinha ido pegar.

– Padre, eu preciso que o senhor me libere algumas mudas de roupa para o casal. No princípio de incêndio eles perderam tudo. Só sobraram as roupas do corpo, e o pobre cachorro. – Rico se dirigiu ao padre com uma voz mais racional e foi direto ao assunto.

– Rico você sabe que a igreja como instituição cristã prega que devemos cuidar do próximo. Do nosso irmão. Portanto, vamos até o salão principal escolher algumas peças de roupa para você levar. Acho importante você pegar algumas caixas de remédio. Você sabe né, nessas horas as pessoas ficam perturbadas, e um calmante não faz mal nenhum. E, o principal, peça para eles me procurarem, gostaria de trocar umas palavrinhas com eles.

– Padre, acho que o senhor está pedindo de mais! – foi a reação mais espontânea que Rico teve em toda a sua vida. – Acho que a última vez que pisaram numa igreja o senhor ainda estava no catecismo.

– Rico!!! Me respeita.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Capítulo 7 - O Início de Uma Amizade

– Mas que diabo está acontecendo lá? – bradou Armandinho ao se aproximar da Praça XI e, de longe, visualizar aquela balburdia de pessoas, carro da polícia, além de que havia, ele não podia diferenciar aquela distância, mas pareciam duas fogueiras apagadas no meio da praça. – Incêndio?

A imagem que estava refletida em sua retina não deixava duvidas. Algo de grave havia acontecido lá. Será que alguém se machucou? Justamente na porta da casa da Giovanna. Que estranho! Armandinho apertou o passo. Queria chegar rapidamente à casa de Giovanna para saber o que havia acontecido.

Era tarde da noite. Ele retornava do Colégio. Apesar de ser um jovem adulto, Armandinho ainda brigava para atualizar seus anos de estudo que devido a situação que o obrigava a trabalhar para ajudar no sustento da família, deixou de lado. Fazia aquilo com gosto, pois sabia que seu futuro só seria melhor se concluísse um curso, seja lá qual fosse, pois o mercado de trabalho só reconhecia um diploma, não importasse de qual faculdade. Vivia intensamente esse momento de sua vida, pois seu trabalho exigia muita energia dele, e logo depois de encerrar o expediente no mercadinho, tinha que sair correndo para casa, tomar um rápido banho e seguir na labuta noturna.

Para piorar a situação, Armandinho estudava em uma escola pública onde o nível do aprendizado era bastante discutível. O que fazia a diferença era o empenho que ele tinha para estudar, aprender coisas novas, e mostrar que quem faz o curso é o aluno. Por vezes, pensou em parar os estudos naquele colégio e seguir em outro, mas como? Não tinha dinheiro suficiente para pagar os estudos em outro local. Então tinha que se contentar com o que era lhe apresentado. Conviver com as atitudes de desprezo dos professores e da diretoria da escola. Soma-se a isso o desprendimento que seus companheiros de classe demonstravam. Estavam ali apenas para tomar seu tempo com algo diferente. Estudar ou não, não fazia parte de suas dúvidas. Muitos deles buscavam o colégio como fonte de fornecimento de drogas. Infelizmente, isso não era algo que somente aquele colégio apresentava de característica, mas sim, de uma boa parte da rede pública de ensino.

Ao se aproximar da porta da casa da Giovanna ele percebeu que os policiais já tinham ido embora, e os vizinhos se dissipavam, cada um para sua casa. O local da fumaça era perto de uma árvore, local em que os mendigos, Juca e Dita, costumavam ficar. Será que algo aconteceu com eles? Não sabia a resposta. Tinha que bater na porta da casa, e perguntar. Seu coração começou a palpitar mais forte do que quando viu de longe que alguma coisa estava acontecendo.

Não precisou abrir o portão, pois já estava aberto, nem tão pouco bater na porta da frente da casa, já estava escancarada. Dentro parecia que a bagunça tinha se alojado. A mesma bagunça que tinha visto de longe. Mas havia uma paz estranha no ar. Um cheiro caseiro de coisa boa. Giovanna estava do outro lado da sala e quando percebeu sua presença na sala correu a seu encontro. O coração de Armandinho começou a bater mais forte ainda, parecia que teria um troço ali mesmo. Se conteve.

– Oi Giovanna, o que está acontecendo aqui? Alguém se feriu? – indagou Armandinho, mas parecia que a resposta pouco importava. Seu olhar não conseguia se desvencilhar do rosto angelical de Giovanna. Se houvesse alguma possibilidade, alguma opção, ele jamais sairia daquela sala. Ficaria olhando os olhos verdes da bela Giovanna pelo tempo que fosse possível.

– Armandinho, aconteceu uma maldade muito grande aqui. Quer dizer, lá fora. – Apesar da voz chorosa, Giovanna não disfarçava a alegria e o gostoso incômodo que era recebê-lo na sua casa. Pena que o momento não era de alegria, mas de revolta. – Os mendigos foram atacados por um bando de vagabundos que atearam fogo nas coisas deles. Quase morreram. Se não fosse o cachorro dar o alarme ninguém iria perceber o que estava acontecendo. Graças a Deus eles estão bem!

Giovanna pegou na mão de Armandinho e trouxe-o para o meio da sala onde Dona Conchetta anunciava que os mendigos iriam dormir na casa dela aquela noite. O prazer de sentir a mão de Giovanna tocando a sua desencadeava uma torrente de emoções em seu peito. Parecia que seu coração iria saltar da boca. Não sabia se prestava atenção no que acontecia na casa, ou se fechava os olhos e absorvia toda a energia que pulsava ao seu lado.

Uma amizade estava começando aflorar. Mas será que ficaria somente na amizade ou finalmente se tornaria uma paixão? Só o tempo poderia dizer. Se bem que a visão de dois jovens de mãos dadas por si só já daria a resposta. Mas naquele instante ninguém estava prestando atenção neles. O foco da conversa eram as ordens de Dona Conchetta e a resignação de Dita e Juca.

Armandinho parecia que fazia parte de uma família, uma grande família italiana. E estava gostando disso. Mas será que haveria futuro naquela relação?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Capítulo 6 - O AMPARO

O mundo está girando e as pessoas também. Esquecem de olhar dos lados, só tem olhos para o horizonte, como se precisassem sempre atingir um objetivo. E tão logo conseguem o feito, vem outro em seguida, e mais outro, e outro. Nessa ciranda louca em que vivemos, nem sempre há espaço para se perguntarmos, e o meu irmão do lado? Quem é ele? O que faz? Precisa de algo?

Como toda máquina engatada, que só corre para frente, nossa vida às vezes precisa de um freio, um breque. O acidente na madrugada de sexta-feira teve esse poder. Todos parados, assistindo uma cena de balbúrdia, misturada com irracionalidade e bandidagem. Um casal de mendigos a espera de ajuda. Eles estavam lá a quanto tempo?

A primeira reação que Dona Conchetta teve foi abraçar a mendiga Dita e colocá-la para dentro de sua casa. Puro instinto. Dita estava em cacarecos. Demonstrava no seu rosto cansado da vida que levava, o susto que a paralisava. Não bastasse a dificuldade do dia-a-dia, ainda teria que conviver com a sensação de pavor e pânico instada a uns minutos atrás. Dona Conchetta grita para Rico:

– Rico, traga o homem, o mendigo, para cá. – Nascia ali uma relação de carinho sem precedentes. Sem saber se estava fazendo realmente o certo. Só sabiam que precisavam fazer.

Nos fundos da casa de Dona Conchetta havia um quarto de bagunças, onde todo o tipo de tralha que um dia serviu para alguma coisa era armazenado. O espaço era suficiente para que um casal pudesse alojar uma cama, e pequenos móveis que daria certo conforto. Ninguém naquele momento imaginaria o que iria acontecer. Mesmo porque aqueles mendigos estavam na praça a um bom tempo, e nunca tinham recebidos nenhum tratamento diferenciado. Prato de comida e roupa velha, sempre fora ofertado, e claro, aceitos. Mas colocá-los dentro de casa, ninguém teria feito. Mas o momento de loucura que havia começado com os garotos ensandecidos, continuava na casa da Italiana.

Giovana correu para a cozinha e preparou uma água com açúcar para Dita. Talvez fosse preciso algo mais forte para trazê-la de volta a realidade. Enquanto isso, Juca sentara numa cadeira velha que estava no quintal da casa, segurando o cachorro Pelé de uma maneira tão carinhosa, que parecia que iria quebrar os ossos do cão. Era o agradecimento por ter salvado a vida deles. Juca sabia que teria que recomeçar tudo de novo, o que não era novidade. Mas o fato de estar dentro de uma casa de uma pessoa, isso sim era algo bem novo. Mal sabia ele que ali seria o seu lar por mais algum tempo.

Assim que as coisas se acalmaram, Rico disse que iria até a igreja no dia seguinte para conversar com o padre Móises. Ele sabia que a igreja tinha um projeto em andamento de ajuda às pessoas mais necessitadas. Claramente havia ali um casal que precisa, e muito, da ajuda da comunidade. Talvez arrumasse roupas novas, alimentos, remédios e roupa de cama. Não era muito, mas o básico para ajudar no reinício. Josefa, enquanto isso permanecia paralisada, sem saber o que fazer para ajudar naquela situação. Normalmente essa era a reação dela. Mas como tudo na vida tem seu momento certo para mudar. Josefa demonstraria que tudo pode ser diferente se tivermos um novo olhar para as coisas.

Logo que a confusão na frente da casa se dissipou, os policiais já tinha ido embora, e os demais vizinhos buscavam cada uma a sua casa, Dona Conchetta, decretou:

– Vocês ficarão aqui o tempo que for necessário. Tenho sobrando um colchão no meu quarto, e traremos para cá. Se precisarem de alguma coisa, é só falar. Vocês querem comer alguma coisa?

– Não dona, obrigado. – respondeu Juca – Antes de isso tudo acontecer tínhamos preparado algo para a fome. Obrigado. Peço desculpas pelo incomodo.

Rico se prontificou em buscar o colchão velho que Dona Conchetta guardava em seu quarto, e disponibilizava para o casal de mendigos. Josefa retornou para sua casa. Enquanto Giovana dava uma última espiada na rua para saber se havia mais algum curioso.

Tanto Dita quanto Juca não estavam confortáveis com aquela situação. Por incrível que possa parecer, eles prefeririam dormir no relento da praça, mas com sua vida intacta, do que dormir num quartinho de bagunça, apesar de que para eles era como se fosse uma cobertura de luxo. Teriam que se acostumar com isso.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Acidente que Mudou o Rumo

Tem coisas absurdas nessa nossa vida. A começar pelo animal com o intelecto mais avançado da face da terra, e sua capacidade de provar a irracionalidade que às vezes o permeia. Os moradores da Praça 11 já tinham ouvido falar, visto pela televisão, mas jamais imaginaram que iriam vivenciar na pele aquele drama. É como aquela velha máxima de que a desgraça não acontece só com o nosso vizinho. Mal sabiam que iriam ser protagonistas numa situação jamais imaginada.

Era alta madrugada de uma sexta-feira, dessas que a lua de tão cheia parecia invadir as janelas de cada casa, e levar uma luz cheia de vida. Vida que para alguns deveria ser celebrada, mas para outros, desperdiçada. Parece que a lua cheia trazia no seu bojo a crença de que o mais perverso dos animais se despertaria. E, parecia que isto estava prestes a se materializar.

A chegada de uma lua cheia era acompanhada com uma noite quente, daquelas que convida até o abstêmio a um gole. Imagina a reação num grupo de amigos que por si só já saiam para farrear. Animados com a temperatura, uma madrugada que parecia dia, e mais o líquido dourado numa temperatura refrescante, pronto para afagar as almas mais doidas. O resultado era um produto pronto para explosão, uma ebulição precedida de muito combustível. A quantidade de cerveja consumida por aqueles grupo de quatro amigos foi além da conta.

Ao retornarem do centro da cidade para o bairro onde habitavam, tinham que cruzar a Lapa de Baixo, e passar pela Praça 11. O carro cruzava qualquer semáforo independente da cor, e numa velocidade compatível somente com rachas. O som alto do rádio tocava um funk carioca que jamais poderia ser tachado de obra-prima, mas que junto com o cérebro preparado dos rapazes a base de muita cevada, montava um coquetel de adrenalina, o qual os rapazes sempre nos finais de semana provavam. Um desses rapazes, o mais velho, cheio de malandragem e amizades não muito recomendadas, começou a montar a bituca, e iniciou a rodada dentro do carro mesmo. Ao se aproximarem da Praça 11, pela Rua Gaspar Carneiro, mesmo caminho que todos os carros usavam para cruzá-la. Esqueceram de uma pequena valeta que havia na rua, e ao passarem por ela, velocidade acima do normal, carro pesado, e motorista não muito atento, fez com que um dos pneus estourasse, e obrigasse o carro a parar. O que pareceria simplesmente um acidente onde uma troca do pneu pelo estepe resolveria, transformou-se numa alavanca para maus humores. Pois não havia estepe. Podia se perceber que a tendência era a coisa descambar, e foi o que aconteceu.

Os rapazes sem alternativa a não ser deixar o veiculo estacionado no meio-fio e buscar socorro em outro canto, viram no meio da praça as duas barracas que Juca e Dita chamavam de quarto. Um dos rapazes teve a insana idéia de chatear quem estivesse dormindo naquelas barracas. Outro pensou, por que não poderiam fazer uma pequena brincadeira, já que tinham um pouco de gasolina de reserva no carro. Iriam esquentar um pouco mais a noite.

Pelé, o cão de guarda, sem pedigree ao observar a presença do estranho, deu o alarme e iniciou o ataque. Por azar, naquela noite, Juca tinha se esquecido de amarrar Pelé na arvore, como sempre o fazia. O cão simplesmente fez o que o seu instinto pediu, botou pra correr um dos rapazes. Mas eles estavam em mais três elementos. Foi a conta de jogarem um pouco de gasolina nas barracas e atear fogo. A velocidade da ação foi absurda, mas alardeados por Pelé, tanto Juca quanto Dida, saiam de suas barracas, e tiveram tempo de salvar apenas a própria pele. Sinceramente, o cenário estava montando para uma desgraça maior. Eles tinham que agradecer a Deus por saírem ilesos dessa. Mas suas coisas ardiam em chamas, e fazia com que toda a vizinhança acordasse para acompanhar o triste desfecho.

Um dos rapazes, Pelé, tinha dado jeito, estava chegando no próximo bairro, correndo. Os outros voltaram até o carro, e o puseram em movimento mesmo com um dos pneus no chão, provocando um barulho infernal de borracha se rasgando e um pouco de fricção do aço com o asfalto.

Coube à vizinhança buscar ajuda de policiais para apagar a fogueira que os rapazes iniciaram. De imediato uma força tarefa se formou para saber se os dois mendigos estavam feridos, machucados, se precisavam de auxilio medico, ou apenas estavam assustados. O que eles perceberam é que na tragédia, Juca e Dida perderam tudo, mas os moradores da Praça 11 ganharam dois novos filhos bem grandinhos, junto com o seu bravo cão de guarda.

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Faz-Tudo

Na natureza humana há os que estão do lado da solução, e outros do lado do problema. Alguns chamam isso do bem e do mal. Outros intitulam isso como sendo as coisas certas e as coisas erradas. Mas o que sempre observamos é que as pessoas buscam se mostrar como sendo o lado positivo, a pessoa do bem, o cara legal. Alguns tentam, mas não conseguem. Outros, nem precisam de esforço para se colocar dentro do patamar de pessoa do bem. Esse era o caso de Rico.

Nascido em Araraquara, cidade do interior de São Paulo, com o nome de batismo de Odorico Paraguaçu de Oliveira Silva, em homenagem ao personagem mítico do mais mítico ainda, Dias Gomes, grande dramaturgo, e que devido ao ator Paulo Gracindo, cativando o publico, em uma novela de tempos outrora, motivou seus pais a registrar o menino franzino, que nasceu prematuro, com um nome um tanto quanto bizarro. Já na época da escola, primário, com ajuda de uma professora que adotou ele como sendo seu, resolveu cortar o nome pela metade, adotou Rico como sendo seu nome, e com isso, eliminou as chacotas que os amiguinhos da escola impunham.

Aos 13 anos, Rico, saiu de sua terra natal e aportou em São Paulo. Morou na casa de uma tia, até completar o ginásio. Depois foi buscar o seu próprio caminho. Trabalhou como servente de pedreiro, ajudante de pintor, meio-oficial de qualquer coisa. O tempo foi passando e Rico foi aprimorando as técnicas que ia aprendendo. Um autodidata em trabalhos braçais, normalmente pesados, foi elevando seu nível de profissionalismo, até chegar ao ponto onde não somente executava, mas mandava os outros peões. Aí é que começava o problema. Não tinha sido feito para mandar. Apenas para executar. Por isso, não parava em nenhum trabalho. Mas como trabalhava bem, era fácil arrumar uma nova ocupação.

A vida fez deste homem uma pessoa sem medo de encarar qualquer desafio em trabalhos braçais. Se fosse necessário desmontar e montar um novo telhado numa casa, ele fazia. Um vizinho precisava abrir um poço artesiano para dar água à família, lá estava Rico chafurdado na lama. Um muro novo? Sem problemas, chame Rico. E não adiantava oferecer recompensa. Ele não queria. Na verdade, sabia que seu trabalho valia muito, mas pensava na mesa da família que o chamara, e a falta que faria às crianças o valor que o contratante estava dando para pagar o serviço. Não fazia questão. Repetia, “- Deus proverá!”, como um mantra.

Essas e outras atitudes de Rico deixavam Josefá, sua esposa, bastante chateada. Pois se não faltava comida na mesa dos “clientes” de Rico, as vezes faltava na sua própria casa. Ele não se importava. Havia o arroz e o feijão. Estava bom. Mas não para Josefá, que reclamava: “- Rico, pelo amor de Deus! Quando você vai aprender a cobrar? Esse pessoal do bairro pensa que você é empregado deles. Se pelo menos pagassem por isso. Mas não. Você só pensa em fazer as coisas e se esquece dos nossos filhos.”

- “Josefá, Deus proverá” – novamente, repetia seu mantra. O pároco da São João Batista, padre Móises, tinha ensinado a ele o sentido da frase. E a força que ela tinha. Por isso, Rico, a utilizava sem medo.

A relação de Rico com a igreja era estreita. Trabalhava nos finais de semana ajudando a comunidade em atividades diversas. Coleta e distribuição de roupas e alimentos. Correr atrás de remédios, muletas e cadeira de rodas, para os necessitados. E claro, pintar ou rebocar um parede qualquer da igreja. O importante para Rico era se sentir requisitado. Alguns abusavam disso.

Padre Móises, insistia para Rico se matricular novamente na escola, e continuar sem estudos. Mas Rico dizia, “- Padre, não tenho tempo pra isso. Tenho que trabalhar pra sustentar as crianças. Eles, e Josefá precisam de mim. Além do que, trabalho todos os dias. Não tenho tempo pra essas coisas mais”.

Com estudo ou sem estudo, Rico, tinha condições de ajudar, e muito, as pessoas a sua volta. Talvez, não tivesse percebido que havia um casal que precisaria muito de sua ajuda. Num futuro bem próximo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Bela Giovanna

Giovanna nos seus vinte e dois anos de idade era o retrato de uma época onde as donzelas eram o dote que toda a família tinha como moeda de troca num casamento arranjado, uma bela morena de olhos verdes. Um rosto angelical que sempre se destacava aonde estivesse. Tinha um ar de menina do campo, com leve sotaque italiano, aprimorado no seio da família, mas que não deixava de lado os costumes cosmopolitas de uma cidade em franco crescimento. Os lindos olhos verdes eram acompanhados de uma sobrancelha que destoava do ar de boa moça, e colocava qualquer rapaz com alguma intenção não muito comportada, no seu devido lugar. Alias, se você quisesse saber o humor da menina, uma dica, tinha que observar o formato das sobrancelhas. Seus cabelos eram negros, bem cuidados, na altura da cintura, cacheados, o que só realçavam a beleza do conjunto.

As roupas que Giovanna usava não estavam em nenhum catalogo de uma casa da alta costura, muito pelo contrário, eram feitas, a mão, por Dona Sebastiana, que morava a duas casas abaixo. De qualquer forma, cada par de roupas que Giovanna usava caía nela como uma luva. Realçavam desde seu tornozelo até o ombro largo. Dependendo do comprimento da saia, ou do vestido, deixavam visíveis as belas pernas da juventude. Uma coisa não podíamos deixar de notar, a vaidade da Giovanna só ajudavam a destacá-la em qualquer lugar que fosse.

Mas como todo menina crescida numa família italiana, tradicional e católica, Giovanna levava uma vida bem monótona se compararmos com a sua amiga, Caetana, filha de um casal de amigos de sua mãe. Os conselhos de Caetana chegavam ao ouvido de Giovanna como fogos de artifício, que observávamos nas noites frias de Junho.

- Gigi, você tem que aprender a beijar! Puxa vida como é bom. Voce não sabe o que está perdendo – sempre que podia, Caetana cutucava a amiga, que retrucava:

- Ah, para com isso Caetana. Você hein?! Sua mãe sabe que você fica pensando nessas coisas?

- E por acaso Gigi você acha que eu fico só pensando? Eu não. Tenho meus pretendentes que me dão tudo que peço. Vou dizer uma coisa pra você, assim que der vou pregar uma mentira na mama, saio sexta-feira e volto só no domingo a tarde. Só Deus vai saber o que vou aprontar.

- Cruz credo! Replicou Giovanna, incrédula no que ouvia da amiga.

Desta forma, Giovanna, crescia ouvindo as estórias da amiga Caetana, e pensando se realmente aquilo era verdade ou não, e o que Dona Conchetta pensaria dela se por acaso caísse nos braços do Armandinho, a sua grande paixão. Os conselhos de Caetana só aguçavam os desejos da Giovanna. Aflorava seus instintos femininos. Sempre em contradição com sua educação até então. Mas com certeza o dia da descoberta estava próximo.

Armandinho trabalhava no mercadinho do bairro, o empório do Seu João, que ficava do outro lado da Praça 11. Fazia de tudo um pouco. Era praticamente o braço direito do dono, e só tinha tempo para pensar no trabalho. Acordava todos os dias às cinco da manhã, e após um café da manhã bem reforçado, a base de pão de lingüiça e um belo copo de café com leite, iniciava no batente antes das seis horas. Todo santo dia. Mal tinha tempo para sair nas noites de sábado e nas tardes de domingo. O cansaço era grande, e os deveres com a escola diminuíam muito o tempo da folga. Mas sempre havia um tempinho para observar a linda morena que as vezes entrava na vendinha e ficava escolhendo algum produto. Até parecia que a morena fitava ele pelo canto dos olhos. Era o que Armandinho pensava. Mal sabia ele que era exatamente o que acontecia. Também pudera, Armandinho era um bonito rapaz, cujo pesado trabalho que executava, tornearam seus músculos, e realçavam a cor morena que herdará de seus antepassados. Os cabelos lisos e arredios ajudavam a dar um ar de rebeldia ao jovem rapaz. A timidez impedia-o de ficar muito tempo na frente do mercadinho. O mais fácil de encontrá-lo era nos fundos do imóvel, próximo ao estoque de mercadorias, arrumando uma coisa aqui outra lá. As vezes, o patrão pedia, e ele a muito contragosto, tinha que executar as entregas das compras das freguesas. Pelo menos uma vez por mês ele tinha que se dirigir a casa de uma freguesa especial, Dona Conchetta.

terça-feira, 23 de março de 2010

A família que ampara

O bairro da Lapa sempre foi um bairro de pessoas abastadas, bem de vida, e de certa forma criava um antagonismo muito grande com o pessoal que vivia na Lapa de Baixo. A parte de Baixo era constituída em sua maioria de família com origem nas grandes fábricas do início do século XX. Marido e mulher se conheciam nas fábricas, casavam, ela se tornava dona-de-casa, e ele iniciava sua vida de arrimo. Bem diferente da parte da City Lapa.

Em sua maioria os moradores da Lapa de Baixo eram imigrantes de origem européia, principalmente italianos e portugueses. Na casa que ficava de frente ao quarto improvisado de Juca e Dita, de fronte a bela Sucupira, morava Dona Conchetta. Matriarca de uma família cujas origens se misturavam ao do bairro. Mãe de cinco filhos, os dois primeiros homens, Pedro e João Paulo, orgulhava Seu Pedro, o pai. Depois vieram Maria Clara, Lúcia e Giovanna. Praticamente não havia diferença de idade entre os filhos. Nasciam um após o outro. Nada diferente do resto dos moradores do bairro, quiçá do resto do país, nos idos dos anos 1950.

Seu Pedro, filho de italiano nascido no Brasil, era o retrato fiel de um homem que buscava a felicidade nas pequenas coisas da vida. Não se chateava com nada, a não ser o final de uma garrafa de vinho. De excesso a excesso ele levava sua vida com uma mistura de trabalho extenuante, e noitadas embaladas pela bebida e pela música. Não resistiu a um infarto fulminante, e deixou a esposa com a dura missão de cuidar dos filhos, e dar a eles um futuro menos medíocre. Os pequenos ombros desta mulher talvez não suportassem tamanha carga.

Dona Conchetta trabalhava dia e noite para cuidar dos rebentos. Sempre auxiliada pelos vizinhos, que a ajudavam nas tarefas, seja na de colocar comida no prato, ou como educar as crianças. A essência de uma comunidade se mostrava forte nessas situações. Trabalho não faltava, a vizinhança crescia e demandava mão-de-obra. Dona Conchetta não recusava. Faltava tempo para pensar num segundo casamento. Mesmo que tivesse tempo, talvez o coração daquela mulher-coragem tinha sido prometido a um único homem, o seu primeiro amor, e agora compartilhado com a única herança de Seu Pedro, os filhos. Eles representavam o que de mais precioso ela possuía.

Como toda família de origem italiana, Dona Conchetta era uma assídua freqüentadora da paróquia do bairro, a igreja São João Batista, que ficava a três quarteirões da Praça 11. Além de todo o trabalho que sua vida já lhe impunha, ela ainda se colocava a disposição da comunidade em trabalhos voluntários, no atendimento aos menos favorecidos. Conforme o tempo passava, ela se dedicava cada vez mais em atividades humanitárias. Neste ponto, tanto ela quanto o pároco, praticavam os mandamentos de uma forma bem mais pontual. Como ela sempre disse: “- Na minha casa nunca faltou comida. Se eu tivesse condições, em nenhuma outra casa jamais faltaria alimento.”. Porem, o que Dona Conchetta não sabia é que sua alma se alimentava por causa dos seus gestos.

O tempo foi passando, os filhos crescendo, e cada um buscando o seu caminho. Só sobrou a filha mais nova na casa, Giovanna. Mas como a vida é cíclica e se renova a todo instante, Dona Conchetta começou a ver sua família se expandir através dos casamentos dos filhos, e no nascimento dos netos. Ela pensava, “- Puxa vida, o Pedro deve estar rindo a toa, aonde ele estiver agora.”.

O que Dona Conchetta não sabia era que iria ganhar um novo filho. Um não, dois, Juca e Dita. Além do Pelé, como mascote.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Vida modorrenta de um pacato casal de mendigos

Juca é o homem, a mulher atende por Dita. O cão é o Pelé. Parece coincidência, mas todo mendigo tem um cachorro. Talvez porque o sentimento de posse pode ser sentido e exercido. Mesmo um mendigo tem a necessidade disso. Filho de Deus.

A moradia é a Praça 11 de Setembro, na Lapa de baixo. Lá, além de ser o refúgio à noite, tem a função de servir como um pequeno estoque de quinquilharias coletadas no dia-a-dia, e carregadas em sua carroça de madeira podre. Se pudesse valorizar este estoque talvez desse para um ou dois almoços, no máximo.

Com um punhado de papelão usado eles montavam duas camas. Ao lado da cama artesanal, as paredes se erguiam baseadas em estacas de madeira dispostas formando uma gaiola, forradas de plástico, onde dava.

Os travesseiros eram as mochilas surradas que carregavam sempre junto ao corpo. O medo da perda do pouco que tinham era quase mortal. Ao lado do travesseiro de Juca, ele sempre depositava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, e fazia questão de proferir palavras de carinho e adoração. Isso quando a cachaça deixava. O que cada vez mais rareava.

Juca era um negro forte, forjado na vida dura que seus antepassados vivenciaram. Marcas por todo o corpo. Ninguém nunca perguntou se as marcas eram fruto de briga ou da dureza da vida na rua. Um pouco dos dois talvez. Suas mãos calejadas viviam sujas da poeira da cidade grande. Retratavam um pouco do trabalho que o acometia. Os olhos, de íris cor negra, eram portais intransponíveis que registravam uma vida dura, vazia de esperança, sofrida. Os músculos da perna e dos braços eram bem definidos, conhecedores da importância que tinham para o dono. Se a inteligência escasseava, os músculos sobrepujavam. Os trapos que vestia, fruto de doações de desconhecidos, vira e mexe eram trocas por novos, se é que devíamos utilizar este adjetivo para descrevê-los.

A mulher, Dita, nascida Benedita da Silva, no Rio de Janeiro, há muito tempo atrás, tanto que nem se lembra mais quando. Mulata que na adolescência apresentava dotes que a qualificariam como uma futura mulher de sambista, quadris largos, coxas grossas, pernas compridas. Mas que o tempo tratou logo de colocá-la no seu lugar. Lugar de uma esposa de mendigo. Perdeu os pais bem cedo, cuidou dos irmãos até a polícia cuidar deles. Caiu no crack, na bebida, e só depois de um atropelamento que dilacerou uma das pernas, e que obrigatoriamente, tirou-a seis meses da rua, conseguiu (ou foi obrigada?) se livrar das duas malditas. Conheceu Juca num albergue do Cambuci, e se tornaram sócios, cúmplices em pequenos delitos, e resolveram dividir tudo do pouco que tinham. Tornaram-se amantes. Viraram marido e mulher. Sabe se lá Deus como.

A Pelé, o cão, um vira-lata preto e branco, que foi adotado numa dessas coletas qualquer, num dia chuvoso, a função era de guarda, sem mesmo ter pedigree para isso. Pelé, por gratidão aos donos, à noite, era capaz de mostrar os dentes para qualquer um que se atrevesse a se aproximar do apartamento do casal. Aí de quem, até mesmo sem querer, cruzasse a Praça 11, próximo de Pelé. Corria-se o risco de ter que buscar ajuda num farmacêutico do bairro.

Poucos que passavam pela Praça 11 observavam o casal Juca e Dita. Não tinham tempo para isso. Mas os poucos que ainda mantinham um espaço de tempo ocioso em suas vidas podiam ver como o casal, e seu fiel escudeiro, representavam no teatro da vida, um casal, quase, perfeito. Ou será que eram perfeitos mesmo?

O dia começava logo ao raiar do sol. Ou ate antes. O sentimento era de que o “quarto” do casal deveria ser desmontado e guardado na carroça antes dos vizinhos “reais” saírem do casulo que chamavam de lar, e adentrarem cada um na sua ciranda particular.

Rapidamente todas as tralhas eram recolhidas por Juca e acomodadas na carroça. Pelé sempre o acompanhava na atividade rotineira e sem graça. Para nós. Mas para o cão aquilo era uma brincadeira sem fim. As tralhas seriam trocadas por um punhado de reais no ferro velho do Seu Alfredo, perto da Marginal do Tietê, ao lado do viaduto da Freguesia.

Era uma boa caminhada. No trajeto de ida, recolhiam mais alguma coisa jogada, ou esquecida, na rua, pela burguesia paulista. Trocavam pelos caraminguás que iriam se transformar na única refeição do dia. Na volta, sempre por outras ruas, iniciavam a coleta de novo, com destino ao apartamento da Praça 11, próximo às Sucupiras. Numa roda vida sem fim.