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sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Executivo



O relógio mostrava que estava na hora de sair. As malas prontas repousavam no hall de entrada do belo apartamento de mais de um milhão de dólares. As chaves do BWM repousavam na mesa da sala de jantar principal juntamente com os documentos e o passaporte. As passagens aéreas foram adquiridas juntamente com os bilhetes de uma peça que estava em cartaz na cidade. New York era seu destino. Mudança repentina dos planos o fizera programar essa viagem a toque de caixa. Nem teve tempo suficiente para se despedir de todos. A exceção fora sua mãe. Uma despedida rápida no dia anterior.

Ele quase nunca a visitava, apesar de ser sua mãe e ter por ela uma ponta de carinho. Não muito mais do que isso. A vida tinha lhe transformado num homem sério. Alguns diziam que era também um tanto quanto inescrupuloso no trato com as pessoas. Mas sua mãe havia lhe telefonado e pedido para que ele a visitasse. Apesar de todos os compromissos agendados, mais essa agora, pensava ele.

Foi ao encontro da mãe. Chegou rapidamente, deu um beijo na testa da senhora e se alojou no sofá, aguardando não muito ansioso o momento de ouvir o que ela tinha por dizer, mas sempre olhando para o relógio de ouro no pulso, contando as horas para sair.

A mãe queria apenas trocar algumas palavras, contar do seu dia, dos problemas de saúde que estava tendo, as intrigas com algumas vizinhas, nada muito sério. Ele estava entediado com tudo aquilo e só pensava nos desafios que iria enfrentar na América.

Até que sua mãe lhe entregou um presente. Era um pacote simples. Ele abriu rapidamente e dentro dele havia um livro. Mais do que um livro, era uma bíblia. Capa de couro, páginas feitas de papel de boa qualidade, bordas avermelhadas. Muito bonito. Ele rapidamente agradeceu, fechou novamente o pacote com um certo ar de descontentamento, contou para sua mãe da viagem, se despediu com um beijo, e a deixou.

Olhou no relógio e viu que já era hora. Pegou todos os pertences que havia separado para a viagem. Deu uma rápida olhada pelo apartamento. Viu novamente o embrulho do presente que sua mãe lhe deu. Pensou em levá-lo consigo, mas desistiu. Não haveria tempo para isso. Lembrou-se da valise com os papéis e o notebook que estava numa das cadeiras da mesa. Pegou-os com agilidade e um pouco distraído esbarrou no embrulho que caiu no chão. O livro se abriu e um papel caiu. A pressa era grande. Ele não tinha mais tempo para pegar do chão. Saiu do apartamento.

O voo 7348 da American Airlines não tinha escala, direto para New York, passagem de primeira classe. Só que tem coisas que o dinheiro e o poder não compram. Uma delas é a vida. Uma pane no momento de aterrissagem devido ao travamento de um dos trens de pouso provocou um grave acidente na pista do aeroporto. O avião derrapou e ao sair da pista chocou-se bruscamente com um dos carros de socorro e houve grande confusão. Saldo, dezesseis mortos. Ele estava no meio.

No apartamento, no dia seguinte, a faxineira encontrou o livro jogado no chão e um bilhete que dizia: Filho querido, que esta bíblia lhe acompanhe em todos os momentos da sua vida. Beijos da sua mamãe.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Inspiração para um Gestor: A Orquestra Sinfônica

Todo aquele que se estabelece na posição de Gestor de pessoas ou de processos e que busca o aperfeiçoamento da excelência da função, deveria agendar uma ida ao teatro para se deliciar com um show de uma Orquestra Sinfônica.

Mas se você é daqueles que não aprecia este tipo de espetáculo, não gosta de música clássica, etc, tente pelo menos fazer esse "sacrifício" (entre aspas, pois para mim não é) como etapa necessária para dar um upgrade no seu entendimento como gestor.

Entendimento de gestor? Isso mesmo!

Supondo que você já tenha ido ver esse tipo de espetáculo, já deve ter presenciado o momento do "aquecimento" que os músicos fazem antes, no próprio palco. É um emaranhado de sons, sem nexo, cada um tentando achar o melhor ponto do instrumento e do próprio corpo. Aquilo que ouvimos pode ser chamado de música? Penso que não.

Mas quando o maestro assume a orquestra, ele põe ordem em tudo. Determina, as vezes apenas pelo olhar, que os músicos se preparem para iniciar o espetáculo, e com a certeza de que cada um elemento daquela orquestra sabe bem o que deve ser feito. Inicia a peça.

Além disso, há o violinista ou o pianista que são os principais elementos da orquestra, dependendo é claro da obra que está sendo reproduzida. Normalmente ao final do espetáculo esses músicos, em especial, são chamados para compartilhar com o maestro a ovação positiva do público.

Mas, dependendo da peça, é necessária a presença do músico que toca pratos. Que em determinado momento da peça é acionado para dar enfase e embelezar ainda mais a música. Em algumas peças somente uma única vez, no grand finale.

Pois bem, tanto o principal violinista, pianista ou o músico que toca pratos, que como já citamos as vezes é tão pouco acionado, representam a essência do trabalho em equipe, e fazem do time do maestro um time vencedor.

Ao maestro, ou gestor, cabe entender o que cada um faz de melhor em sua função e motivá-los a exercer com dedicação profissional a sua vocação, a qual foi melhorada por treinamentos intensos.

É ou não uma aula de gestão de pessoas e processos?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Inconstância

Devemos continuar algo que sabemos que não vai chegar a um bom fim?

Por que temos que nos adaptar a mediocridade e planificar ações baseados nisso?

Na minha opinião penso que a resposta para essas duas questões é peremptoriamente Não.

O engraçado é que as pessoas sabem que a coisa não vai pra frente mas quando você toma a decisão de interromper o processo surge ares de surpresa no rosto delas.

Tem até aquele com o qual você compartilhou temores, receios e novos planejamentos, que ao saber da notícia do rompimento diz "mas já?!".

Será que as pessoas estão preparadas para tomada de decisão? Ou acham que estão, fazem parecer que sim, mas na hora H se sentem pressionadas pelo momento, e recuam?

Pode ser.

O importante é o bem maior para o decisor, a certeza da decisão tomada. Pois só podemos ter certeza das decisões tomadas, mas não podemos ter certeza de que será a melhor decisão no tempo futuro. Como dizem os antigos, O futuro à Deus pertence.

Podemos nos apoiar na experiência de vida de grandes homens. Jobs enfatizava sempre que devemos olhar no espelho e perguntar para nós mesmos, o que você fará hoje realmente tem a importância que o seu dia e a sua vida merecem?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Capítulo 14 - Giovanna e o seu Dom

A bela Giovanna guardava dentro de si muitas bondades que nem todo mundo sabia que existia. Ela sabia que havia algo que poderia utilizar para mudar algo na vida das pessoas. Sua capacidade de ensinar. Seu desejo de ver o próximo adquirir conhecimento sobre alguma coisa. Na verdade o que os outros enxergavam como profissão, ela via como prazer. Sentar ao lado de uma pessoa que nada sabia e iniciar um aprendizado, gratuito que fosse, era para a jovem Giovanna um ação de prazer inenarrável. A ideologia que aflorava sem que ela notasse essa presença. Sentia que algo poderia fazer para melhorar as coisas no mundo. Pura ideologia.

Quando os mendigos vieram ocupar o espaço dos fundos de sua casa, ela pensou que poderia dar a eles muito mais do que simplesmente um abrigo ou refeição, mas sim algo que pudesse fazê-los cidadãos. Só não sabia se sua empreitada seria aceita por eles. Nem sempre as pessoas reconhecem aqueles que querem ajudar. Não reconhecem a diferença entre ajudar a crescer e somente amparar. De qualquer forma, ela entendia de que deveria conversar com eles para saber se havia alguma chance de sua forma de ajuda ser aceita.

A experiência de Giovanna era restrita ao tempo das aulas de catecismo na igreja São João Batista, próxima a sua casa. O ar angelical que ela prestava ao curso era mais do que bem-vindo pelo pároco Moisés. A capacidade de contar uma simples estória como se fosse uma epopéia para os jovens alunos transformara aquela menina em jóia da coroa. Não era fácil levar até a comunidade as lições católicas, principalmente numa época onde o educador não era mais visto como sendo a figura principal, aquele que precisava ser respeitado por todos a todo instante. Infelizmente a juventude via na figura professoral algo que tinha que ser transgredido, pois representava uma repressão do passado. Mas aí surgiu Giovanna, a linda italianinha com uma vontade de passar adiante o conhecimento aos jovens aprendizes. Não havia ninguém que conseguisse demover os alunos de assistir suas exposições. Havia muito amor naquilo.

Giovanna observava o casal de mendigos que ocupavam os fundos de sua casa, e via ali uma oportunidade para mostrar para todo mundo que havia chance de mudar o rumo das coisas. Sentimento esse que talvez não fosse compartilhado com todo mundo. Nem sempre um ato que demonstre ajuda é amparado por todos. Quando se tem algo para se mostrar a alguém e isso fica reprimido dá uma dor de coração que ninguém agüenta. Estava na hora de Giovanna saber se haveria espaço para tal atitude.

Na sua época de professora de catecismo Giovanna recolheu muito material que estava jogado nos fundos da igreja. Parte desse material ela doou para uma biblioteca municipal que ficava próxima à praça. Mas, um punhado de livros didáticos ela reservou para uma necessidade futura. Na verdade, ela não queria se separar de um punhado de linhas e letras que poderiam fazer alguma diferença no futuro. Numa dessas mexidas em suas coisas ela descobriu algumas cartilhas que eram utilizadas no passado para aprendizado de adultos. Uma atividade que a igreja tinha, respaldada pelo governo, auxiliando na disponibilização do material básico. Isso, mais lápis e borracha faziam o kit básico necessário para começar as aulas.

Faltava saber se os mendigos pensavam da mesma forma. E não há como saber se não perguntar. Mas e o medo? Ela estava na verdade contando tanto com isso que o medo não deixava extravasar seus anseios. Bom, na verdade nem sabia se eles eram analfabetos ou não. Tinha que perguntar. Mas como? Só tinha um jeito, ir lá.

Giovanna esperou o retorno deles da rua, ao final do dia. Ao chegarem, percebeu no semblante deles de que algo não muito bom aconteceu. A preocupação tomou lugar da expectativa em indagá-los sobre as aulas. Giovanna disse:

– Meu Deus do céu, o que aconteceu? Vocês estão tão pálidos? O que houve? – Giovanna foi dizendo isso e segurando no braço de Dita, enquanto Juca levava sua carroça para os fundos da casa.

– Num foi nada não! – respondeu resignada a pobre Dita. Resposta tão sem veracidade que ao falar isso Dita começou a enxugar as lágrimas que começavam a cair.

– Como não foi nada Dita?! Dá pra perceber nos rostos de vocês de que algo ruim aconteceu. – Insistiu Giovanna.

Eles relataram o que havia ocorrido. Da forma como foram abordados ao coletarem papelão perto do Ceasa. Não havia como não ficar chocado com tudo isso. Mesmo porque não dava para entender o motivo que levava a uma situação tão traumática. Mas o fato de relatarem a história para Giovanna foi acalmando os dois, Juca e Dita. O rosto da linda Giovanna com ar de preocupação por eles transformara aquele momento em único. Nunca tinham visto tão compaixão por eles expressada por ninguém. O ocorrido no dia tinha abalado de sobremaneira Dita, mas não podia se dizer de Dito, pois ele já estava bem acostumado com a frieza e maldade que encontravam no dia-a-dia na coleta de reciclados. As pessoas nem sequer percebiam suas presenças. Pareciam que era o lixo da sociedade. Povos que deveriam ser extintos. Nem sequer deveriam existir, andar, ou falar com os “humanos”.

Mas o melhor estava guardado e eles não sabiam. Após ouvir todo o relato do ocorrido por Dita, Giovanna já com seu semblante carregado de raiva e com vontade de buscar a solução com suas próprias mãos. Mãos que não mereciam sequer ser usada em nenhum trabalho braçal tamanha era a beleza dos dedos. Soltou a frase que iria mudar o dia deles, e o dela também:

– Bom, acho que vocês deveriam passar por cima disso tudo, esquecer o que aconteceu hoje, mas talvez rever a forma como vocês estão levando a vida. Gostaria de saber até onde vocês foram nos assentos escolares. Até onde vocês estudaram. Se é que vocês já foram para a escola.

Aquela pergunta não estava sendo esperada, nem hoje nem nunca. Ninguém. Absolutamente ninguém havia um dia se dirigido para aqueles dois mendigos e demonstrado algum interesse em saber do passado deles. Só restava às pessoas olharem os mendigos e imaginarem um futuro cada vez mais piorado. Eles não estavam esperando que alguém lhe perguntasse algo semelhante. Dita falou:

– Óia dona Giovanna, para ser bem sincera, eu e Juca não sabemos nem escrivinhar. – A fala de Dita não poderia ser mais sincera e demonstrar toda a necessidade de um individuo em obter algo que deveria ser básico a todos. A comunicação.

Giovanna guardou as lágrimas para ela. Infelizmente ou felizmente, era a resposta que ela esperava. Não podia ter algo melhor para se ouvir do que a oportunidade de utilizar seu conhecimento em prol do outrem. Aquilo caiu como uma luva nos interesses de Giovanna em demonstrar todo o seu conhecimento em alfabetizar uma pessoa. Claro que ela não tinha praticado com ninguém ainda, porém algo de bom estava por vir. Ela via naquela situação uma oportunidade para demonstrar a todos de que algo poderia ser mudado na vida daqueles dois mendigos. A felicidade de Giovanna não cabia dentro daquele corpo minúsculo.

– Bom, então começamos amanhã à noite as aulas de alfabetização. Vou fazer vocês a aprender a ler e escrever. Vocês vão ver o bem que faz isso para todos nós. Nossa! Não vejo a hora para começar!

Juca estava literalmente de boca aberta. Não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Se alguém pudesse bater uma foto e mandar para os jornais, teria que ter uma legenda para exprimir o que ele estava sentindo naquele momento. Não poderia acreditar que uma moça fina e elegante, que se vestia como se fosse uma princesa, uma beleza impar, pudesse acreditar que dois burros xucros poderiam ser educados de tal forma que iriam ler e escrever! Não estava acontecendo isso! Ou estava?

A Dita estava em prantos novamente. Agora, era por uma boa causa. Antes, amargará uma experiência inédita de quase ver o marido levar um tiro nas fuças. E agora, depois de toda a tormenta que viveram, quase queimados por um bando de malucos em praça pública, ganharam um cantinho para morar, e vem a filha da dona da casa informar que iria dar aulas à eles! Meu Deus do céu, o que está acontecendo? O mundo pirou e não me avisaram? Tinha alguma coisa a dizer além de:

– Mas é claro que queremô, dona Giovanna, quando podemos começar?

sábado, 4 de setembro de 2010

Capítulo 13 - A Teimosia de Rico

– Não! Não, e não, Rico! Você pensa que somos ricos? – por essa reação de Josefá ele não esperava. Só porque Rico disse a sua esposa que estava pensando em ajudar os mendigos a ter seu próprio teto. Mas ao falar para a esposa que ele pensava em construir uma casa para eles, houve a reação.

Ela argumentou que eles não tinham nenhuma obrigação com o casal de mendigos. Alias, eles não tinham obrigação com ninguém. Se alguém deveria se preocupar com os mendigos esse alguém seria o governo.

– Rico, por que você não vai pedir isso lá na Prefeitura? Quem sabe eles dão duas casas, uma para eles e outra para nós! hein? – ridicularizou a esposa.

Josefa continuou a sua argumentação, que como sempre era mais forte do que a de Rico. Dizia a ele que hoje em dia ninguém se preocupa com ninguém. Se não fosse a Dona Conchetta amparar os mendigos, quem o faria? Ninguém, ela repetia. Não haveria de ter nenhum órgão oficial que se preocupasse com o bem-estar deles. Era só ver como deixaram eles chegar àquela situação. Dormir no relento, embaixo de uma arvore, numa praça qualquer da cidade. Comendo sabe lá o que. Por que teriam que ser eles, Josefá e Rico, os escolhidos para dividirem o pouco que tinham? Mesmo que eles tivessem alguma economia guardada, será que deveriam usar para um novo teto para os mendigos? Ela pensa que a resposta é não.

Mas o instinto de Rico é o de ajudar. Não importa para que e a quem. Ele começou a relatar a idéia que teve:

– Olha só, Josefá, nos fundos da casa de Dona Conchetta há espaço suficiente para subirmos um sobradinho. Lá já tem um quarto de bagunça que o finado, seu Pedro, tinha construído com a idéia de que no futuro houvesse um espaço para um dos filhos usar. Pois bem, toda a fundação, o alicerce, já está pronta. Só precisamos reforçar as paredes, construir a laje, e ... – Josefá não permitiu que ele terminasse a frase.

– Rico, para! Não tem sentido isso. Você tem mania de ajudar todo mundo. O que você ganha com isso? Nada. E, pior, com que dinheiro você fará tudo isso?

– Dinheiro não é problema. Eu converso com o Padre Móises e ele dá um jeito. – retrucou Rico.

– Rico você precisa ser internado. Você acha que o Padre Móises tem dinheiro sobrando? Se tivesse dinheiro ele já teria arrumado a torre da igreja que está quase caindo na cabeça das pessoas. Fica fazendo quermesse atrás de quermesse para atrair o dinheiro do povo, para ver se junta uns trocados e conserta o que precisa ser consertado. Você pensa que vai chegar lá e pedir dinheiro e o padre vai lhe dar, como se desse bom dia? Não é possível. Rico, de que mundo você veio?

Josefa estava certa. Como sempre acontecia. Ela era a razão. Ele sempre o devaneio. Mas ela sabia o tamanho do coração do marido. Tinha sido a principal razão por ela se apaixonar por aquele rapaz que chegou do interior de São Paulo com muita vontade para mudar o sentido das coisas. A vida não era simples. As pessoas que não se esforçam não chegam a lugar algum. Não era o caso de Rico. Desde o primeiro dia dele na cidade grande não houve moleza nem tempo para descanso. Trabalhou duro deste o principio. Não haveria melhor rapaz para uma moça casar, mesmo que não tivesse um pingo de cultura e tivesse que terminar os estudos, mal começado. Talvez por todas as dificuldades que ele presenciou, seja na própria vida ou das pessoas que o cercava, ele carregava sempre bons pensamentos para ajudar as pessoas. Não importava o quanto isso representava de sacrifício na vida

– Entendi, Josefá. Você tem razão no que diz. Mas, vou procurar o Padre Móises e ver de que forma podemos ajudar os mendigos a ter um cantinho só deles. – Rico disse isso e já foi saindo de casa, provavelmente se dirigindo à igreja.

Josefá simplesmente olhou para o teto e bufou. Pelo jeito, tudo o que ela tinha dito foi em vão. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro lado sem fazer efeito algum no cérebro tamanho de ervilha que o marido tinha.

Mas será que o Padre Móises ajudaria Rico em sua empreitada maluca? Dois loucos?

Capítulo 12 - O Novo Primeiro Dia de Trabalho

No rescaldo que fizeram no dia posterior ao acidente, Juca e Rico perceberam que tudo havia sido perdido, com exceção da carroça que eles usavam no dia-a-dia. Parecia que nem tudo estava perdido. Com um pouco de manutenção, a carroça poderia ser utilizada novamente. Era uma boa notícia no meio de tantos desencontros.

Ao amanhecer naquela segunda-feira, Juca se pôs de pé e chamou Dita. – Acorda Dita, vamô trabaía. – O sol ainda não tinha brilhado seus raios no bairro e eles já estavam abrindo o portão e saindo para a rua. O destino deles era incerto. Só sabiam que deveriam voltar ao cotidiano. Eles tinham recebido uma benção. Agora deveriam fazer por merecê-la. Isso, eles só conseguiriam se dessem a volta por cima. Tentariam a partir desta segunda-feira.

Mudaram o itinerário e se dirigiram para o Ceasa que ficava a poucos quilômetros dali. Era uma boa caminhada mas que poderia render bons frutos. Como sempre, Juca ia à frente puxando a carroça, Dita mais atrás e o cão Pelé como fiel companheiro, ao lado. A consciência da população com a reciclagem tinha sido benéfica a eles. Cada vez mais, as pessoas separavam o que era lixo e deveria ser descartado nos lixões, daquele que é material com possibilidade de reciclagem. Mas, paralelamente, a profissão deles, catador de papelão e afins, estava se tornando uma opção para um grande número de desempregados e migrantes, transformando em disputa o trabalho deles.

Ao chegarem ao Ceasa o resultado da coleta não tinha sido muito generoso com eles. Poucas coisas haviam sido descartadas. Mas se depararam num dos portões de entrada do estabelecimento, com uma grande pilha de papelão que tinham sido descartados, aparentemente, por comerciantes do local. Não pensaram duas vezes. Começaram a coletar os papelões e lançar à carroça. Parecia que a sorte estava mudando de lado. Aquele mundaréu de papel representaria um bom dinheiro. Para o primeiro dia de trabalho não poderia ter coisa melhor.

Logo após começarem a coleta do papelão perceberam a presença de um velho caminhão que se dirigia ao local. O caminhão parou quase que colado a carroça deles. Desceram da boléia dois homens, e da parte de trás mais três homens. Todos mal-encarados. Aproximaram-se de Juca e foram logo dizendo:

– Quem lhe deu ordem para mexer em nossas coisas, seu bosta? – a frase de cartão de “boas vindas” não poderia ser uma das piores. Um calafrio tomou conta do corpo, tanto de Juca quanto de Dita. Perceberam que a coisa poderia ficar feia.

– Peraí amigo, to só trabalhando. Tô tentando fazer meu dia. – Tentou argumentar Juca, na esperança de que a situação fosse amenizada. Mas sabia que era um argumento fraco. Sabia que não ia ter jeito.

– Então vai procurar sua turma! Você vai tirar todo o papelão dessa sua carroça e deixar no mesmo lugar que encontrou. Essa carga aí é minha. Esse é o nosso território. Vocês pensam que podem chegar e se apropriar de nossas coisas?

– Não é isso seu moço – falou Dita – é que chegamos aqui e encontramos esse monte de papelão jogado, aí achamos que podíamos pegar e ir embora.

– Pois pensaram errado véia – falou um dos homens que havia descido da parte de trás do caminhão – podem desfazer o que fizeram. Alias, se quiserem tirar as coisas da caroça e ir embora, tudo bem. Caso contrário, nois vamo destruir suas coisas também.

Não havia opção. Eles entenderam o recado. Juca, então, começou tirar o pouco papelão que já havia colocado na carroça. Cabisbaixo e derrotado. Sabia que ali não era hora nem momento para discussões. Mesmo porque, não seria somente ele que seria castigado. Dita e Pelé não mereciam passar por aquilo. Será que o pesadelo que aconteceu com eles naquela fatídica sexta-feira iria continuar? Não era possível isso. De qualquer forma, o que deveriam fazer era amenizar a situação. Rapidamente eles tiraram todo o papelão e colocaram no mesmo local que o encontraram. Quase que instantaneamente os homens puseram a coletar o papelão e jogar para dentro do caminhão. Nisso se aproximou o motorista, e deveria ser o chefe do bando, e falou:

– E outra coisa, aqui é nosso território de coleta de papelão. Três vezes por semana a gente faz a coleta. Os donos dos estabelecimentos já nos conhecem, e sabe que é assim a coisa. Sabe como é? Uma mão lava a outra, se é que me entendem. Se vocês aparecerem de novo aqui a coisa vai ficar bem feia. Tá ligado? – falando dessa maneira e levantando a camisa, deixou à mostra um revolver. A intimidação estava completa.

– Sim, senhor. – Disse resignado Juca, abaixando a cabeça e começando a puxar a carroça para o meio-fio. Dita e Pelé seguiram-no. Havia de ter algum outro lugar para se coletar papelão.

Pelo jeito, a maré de má sorte ainda estava acompanhando eles. Mas como dizem, há males que vem para o bem. Será?

Capítulo 11 - Os cuidados de Mama Conchetta

– Que Padre mais maledito!!! Farabutto!

Essa foi uma das primeiras reações que Dona Conchetta teve ao ouvir de Rico o relato da conversa que ele teve com o padre Móises. Uma reação nada cristã por parte da Mama, e que com certeza não estava sendo aguardada. Rico, então, deve que amenizar um pouco mais seu relato, pois a coisa poderia ficar mais feia do que já estava.
Dona Conchetta quando calma já é um perigo, imagina quando a italiana ficava nervosa. Aí ninguém segurava.

Ainda bem que Rico trazia várias peças de roupas usadas que haviam sido doadas à Igreja. Além de alguns remédios básicos que o Padre Móises tinha exigido que ele levasse aos mendigos. Não era muita coisa, mas já demonstrava que a comunidade estava do lado deles.

Dona Conchetta se acalmou, afinal de contas o que valia mesma era a intenção do Padre Móises em ajudá-los. Mesmo porque, racionalmente falando, o que ela tinha feito em acolher os mendigos não era algo comum, principalmente nos dias de hoje. Portanto, a preocupação que o Padre mostrou nada mais era do que uma reação de alguém preocupado com elas.

– Dona Conchetta, pode ficar tranqüila que eu dei a minha palavra ao Padre Móises de que eu seria o responsável pelos mendigos enquanto eles permanecessem em sua residência. – Rico tentou amenizar a situação.

– E quem disse que eu preciso que alguém responda por mim? Rico, você está ficando louco? Desde que o meu marido faleceu que eu toco a casa e as crianças, sem precisar de homem de calças aqui para dizer o que preciso fazer, para onde devo ir. Onde já se viu uma coisa dessas! – Reagiu a Italiana.

– E outra coisa – continuou a Mama – você pegue as tralhas que trouxe da Igreja e leve para o quarto dos fundos e entregue para dona Dida. Ela sabe bem o que fazer com isso. Bem, também não esqueça de agradecer ao Padre por mim, e diga que se ele tiver um armário velho lá, pode trazer porque eles vão precisar. E me passe a lata de molho. – as vezes Rico não entendia direito para que lado deveria ir, mas isso só fazia parte do mundo da italiana e seu jeito meio bronco de ser. Mas o coração daquela mulher era maior do que o de todos naquela vizinhança.

Tudo isso aconteceu em volta da mesa na cozinha, do lado da pia e do fogão. O cheiro que emanava era o mais aconchegante possível. Aquilo fazia parte do ritual da casa. Todos em volta da Mama e suas comilanças. As vezes na cozinha haviam mais pessoas do que no resto da casa. Era lá que as broncas e os mimos aconteciam. Juntamente com todas as histórias e fofocas do bairro. Uma das coisas que não era permitida naquela casa era entrar e não comer nada. E olha que a Mama tinha uma mão boa para os pratos.

Nos domingos então, como este, era o dia em que a casa ficava cheia. Além deles, Giovanna estava lá com sua amiga Caetana. Logo depois chegou Josefá para se juntar ao marido. Além deles haviam os novos hospedes, Juca e Dita, que não se misturavam. Ficavam sempre nos fundos da casa, mexendo em algo. De qualquer forma, todos iriam comer na mesma mesa, compartilhar os mesmos pratos. Era uma verdadeira confraternização.

Após o almoço todos ajudavam na limpeza. Um lavava a louça, outro enxugava. Outros limpavam a mesa e a cozinha. Normalmente nesta hora, mama Conchetta, sentava em sua cadeira de balanço que ficava na sala como se fosse aquele o presente merecido que ela se dava, por um dia cansativo. O que não durava muito, pois logo ela decidia fazer algo, um bolinho de chuva, ou simplesmente um café forte, e levantava da cadeira.

Quem não estava muito a vontade com aquela situação era Juca. Após o almoço se recolheu aos fundos da casa, sentou numa cadeira que havia e pôs-se a pensar no dia seguinte. Seria o dia que ele iria voltar à labuta. Agradecia muito a ajuda que todos estavam mostrando, mas precisava voltar à sua rotina. Amanhã será um novo dia, era o pensamento que ele fomentava naquele instante.